
Tem como?!
Marcus Vinicius Leite
Da Equipe do Manual dos Focas
A imprensa foi feita para orientar a opinião pública, mas, em verdade, é a opinião pública que orienta a imprensa. Suas duas grandes forças são o crime e a política; a política é feita criminosamente e o crime não passa de política pra vender jornal.
Na imprensa moderna há seções para todo tipo de público, inclusive a de humorismo — mas não é qualquer leitor que percebe facilmente qual é verdadeiramente a seção de humorismo.
Muito jornalista tem outras profissões e faz da imprensa um bico: é que ganha o suficiente por fora, pra não abrir o bico. Para um linotipista, o jornal se divide em cíceros, para um redator em colunas, para um publicista em centímetros quadrados e para o proprietário em metros cúbicos — de encalhe.
O que não se pode negar é que a imprensa é uma profissão de futuro: os diretores sempre prometem um salário melhor para o futuro. Os jornalistas se dividem em três categorias: os formados, os informados e os conformados. “Furo” é essa notícia sensacional que todos os jornais dão juntos, em primeira mão.
“Barriga” é a notícia que apenas um jornal dá, com absoluta exclusividade — bem-feito, quem mandou não confirmar? “Foca” é o novato que pede ao diretor pra adiar a reportagem das enchentes porque é muito difícil trabalhar com as ruas inundadas. Mas uma coisa é inegável, através dos tempos: por mais que um jornal tire o corpo fora, acaba sempre no embrulho.

" Ta Rindo do Que?"
Para isso, o Manual dos Focas decidiu brincar com o (já fadado e deveras utilizado bordão) “Politicamente correto” aos que ainda sim insistem na carreira do humor daqui pra frente. Ficou assim o anteprojeto do rascunho de piadas para a atuação de comediantes, palhaços, engraçadinhos, redatores de programas humorísticos, cronistas e similares na sociedade:
Artigo 1º: A partir desta data, ficam vedadas, em todo território nacional, piadas de baixo calão e de gosto duvidável em apresentações ao vivo, textos para jornais e revistas, programas de TV, rádio e em produções cinematográficas nacionais em vídeo e/ou película.
As disposições em contrário são totalmente risíveis.
Artigo 2º: As piadas de “português”, publicadas em mídia impressa, devem trazer uma tarja nas medidas: 15 X 30 centímetros, com o seguinte texto (em fonte Helvetica Neue Bold Condensed, corpo 18): “A expressão “português” foi meramente ilustrativa, não trazendo em si ressentimento, crítica ou sentimento de menoscabo a qualquer povo ou nação”.
Se a piada for contada diretamente a mais de três pessoas, o gaiato em questão deve dizer a frase acima, no prazo máximo de 10 segundos, após o término das gargalhadas da platéia.
Adendo ao Artigo 2º: Ao proferir a frase pós-piada, o Comediante precisa dizê-la da maneira mais neutra possível. Não deve ironizá-la, ridicularizá-la ou mesmo introduzir cacos ou palavras ambíguas no contexto.
A não observância desse Adendo incorrerá em multa de até 100 salários-mínimos ou à condenação do Humorista a trabalhos sociais em ambientes antagônicos à sua personalidade, a saber, o Setor de Contabilidade do Instituto Brasileiro do Café ou o Arquivo de Facsímiles do Anexo II do Congresso Nacional.
Artigo 3º: Dependendo do teor de infâmia, os “trocadalhos do carilho” poderão ser considerados danosos aos interesses nacionais. Cada caso será avaliado por uma Junta do Conselho Federal de Humorismo e a pena obtida após Deliberação conjunta.
Artigo 4º: Anedotas que se refiram a homossexuais, afro-americanos, pobres, argentinos, gaúchos, cornos, gagos, fanhos, papagaios, corcundas, freiras e freiras corcundas passam a ser consideradas anticonstitucionais. O Conselho retirará definitivamente a “Carteira Funcional de Bobo” do Profissional que repercuti-las.
Artigo 5º: Referências explícitas a um hipotético órgão sexual desproporcional em anões numa determinada narrativa jocosa terá status de crime inafiançável – sem direito a habeas-corpus.
Artigo Único: Piadas com este projeto não serão toleradas e posteriormente punidas com rigor conforme o Estatuto aqui proposto. O engraçadinho-réu poderá ser deportado para o Zorra Total ou Praça é Nossa e, dependendo da gravidade, até mesmo para Portugal.
Amém?!
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