Saturday July 31st 2010

Biografia de uma Pauta Sangrenta – Parte 16

Vinte minutos foi o tempo que durou minha espera por outro trago, que logo se esfacelaria diante da inebriante fumaça deixada por mais um Derby em chamas.

Ao mesmo tempo, sem que me importasse com a aprovação do taxista, tomei para mim o bloquinho com anotações do que havia sido dito na coletiva do dia anterior.

Busquei no chumaço de papel reciclado aspas que ainda não haviam sido publicadas na matéria do dia. O calor maltratava meu braço esquerdo; a ressaca, minha cabeça. Só o cigarro me acalmava.

Mal engoli a fumaça do meu vício o taxista anunciou o destino solicitado. — R$ 17,30 pela corrida, senhor, disse. — Toma, despejei no estofado duas notas de R$ 5 e uma de R$ 10.

Não antes de conferir se havia esquecido qualquer objeto no banco do carona saltei do carro e me dirigi à entrada do Metrópole.Não pedi troco. A cara de sono, as roupas amassadas e o andar atrapalhado denunciaram minha ressaca. Três ou quatro fechadores ou diagramadores notaram o etílico estado em que me encontrava.

“Foda-se”, disse para só eu ouvir. Noutro ponto da redação avistei um senhor grisalho trajando calça caqui, blusa branca meia manga e suspensórios cravejados em metal. Era meu editor. — Bela matéria você escreveu, Cardozo. Espero que o pingue com a mãe fique tão bom quanto o que foi publicado hoje, disse referindo-se à entrevista colhida horas antes no hospital.

Estava atrasado. Sem que me deixasse levar pela estranha vontade de me vangloriar pelos elogios feitos pelo editor despejei sobre o tampo da minha mesa o paletó surrado, cigarros, bloquinho e gravador. — Tem café passado, indaguei a um colega de esportes que ouvia pelo rádio a transmissão de 0 Bangu x 4 Olaria. — Tá meia boca, mas dá pra descer, respondeu pelo canto da boca não ocupado pelo Hollywood sem filtro.

Não quis interromper. Tomei para mim meio copo de café morno e cigarro. Levei pouco mais de 40 minutos para bater toda a entrevista. Não podia me demorar. Entreguei a lauda ao editor e avisei que estava de saída à delegacia, à procura de coisa nova. Ele não reclamou. Pediu, apenas, para que ligasse caso descobrisse ou visse algo que valesse foto. — É nosso abre de página de amanhã, Cardozo, avisou. Desembarquei na delegacia tão logo tivesse tempo de acender um cigarro.

Identifico no balcão Osmar, um policial bom de papo que conhecia das peladas das quintas-feiras. Osmar, sempre que pode, adora tomar o lugar de Martha. É do tipo que adora holofotes, câmeras, aparecer no jornal. Tão logo me viu Osmar disparou a falar do crime.

Sem que percebesse, em cinco minutos, já havia revelado que o corretor Geraldo Campos havia aparecido e que estava sob escolta. – É ele, posso te assegurar. (O pai) É tão filho da puta que nem procurou a esposa. Decidiu se hospedar numa suíte do hotel Maldoni. Tem uma equipe nossa vigiando o prédio desde a manhã de hoje, vomitou Osmar. Engulo a seco as palavras do agente, que, envaidecido pela exclusiva, tocou-se a falar do que sabia, dando-me pistas e informações sobre o crime.

Ao final, contou-me que nada do que havia dito podia ser publicado. E alertou: “não sou eu quem devia estar falando sobre o caso, sabe. Mas já que está aqui, merece saber… Daqui a algumas horas devemos ter algo concreto para passar para teus colegas. Mas lhe garanto, o cara é culpado.

É o que tudo indica”, admitiu. Ronda-me a cabeça o turbilhão de informações disparadas pelo agente. Identifico, entre palavras e gestos dispersos, algo sobre a participação da SiCVio no caso. Lembro que a mesma Seção de Investigações de Crimes Violentos havia mostrado ineficácia quando se prestou a buscar provas que levassem a polícia a prender o assassino de Maria, há alguns anos.

Divago comigo mesmo sobre os procedimentos criminais, sobre a lisura dos julgamentos, a morosidade da justiça. Os tribunais, Martha ou o agente não acolhem mais minha confiança no que é justo. Lembro-me do corruptível Palhares, sua incompetência e arrogância. Enumero para mim mesmo a quantidade de tribunais e outras tantas cortes magistrais criadas para dispor sobre tudo e nada ao mesmo tempo. Sou a ira e o alento. Sou a dor pela morte da menina que nunca vi.

Sou o ódio de quem perde um grande amor sem nunca tê-lo amado um só dia. Sinto por Maria ter me deixado. Despeço-me da cena sem dizer uma só palavra. Ando pela rua. A todo o instante, vem-me à cabeça a imagem do pai assassino gozando da liberdade que havia lhe sido concedida; imagino-o despido num quarto de suíte do hotel Maldoni ao lado de prostitutas e porções de maconha e cocaína. Haviam porquês dos quais não me deixavam despedir-me daquela história.

(Continua…)

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4 Comments for “Biografia de uma Pauta Sangrenta – Parte 16”

  • albertinho says:

    krykrykrykrykrykrykrykrykrykrykry…
    piadinha a parte, o texto ficou muito bom, principalmente a segunda parte, nota-se inclusive que os trechos foram escritos em momentos diferentes, mas nada que atrapalhe a história. Que desfecho terá esse romance policialesco. Muito bom hien, continuem mandando bem.

  • Julliany says:

    Muito bom… but, vai lá e conserta “os trem” agora! rssss…

  • Marcus Vinicius says:

    asdasd

  • Marcus Vinicius says:

    Bem legal esse texto. A historia tem agradado bastante, acho que dá pra virar um curta ou coisa parecida.


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