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Biografia de uma pauta sangrenta – parte 17

Postado por João Porto on October 23, 2008 – 14:048 Comments
Saí da delegacia a passos rápidos. Desci a primera rua em frente a delegacia, vireia na primeira à direira e continuei a seguir reto até chegar em uma pista menor que ligava aquele bairro à uma grande avenida. Continuei no mesmo trajeto por 45 minutos, culpa dos milhares de pensamentos que se atiravam contra minha concetração. As pessoas esbarravam em mim e era como se eu fosse um fantasma, achava que podia atavessá-las até um centímetro antes do impacto. Quando dei por mim já era início de noite e eu estava em um local familiar. Olhei em volta e vi não distante o nome Maldoni piscando em letras vermelhas, era o hotel que indicaram como a localização do pai da menina. Eu precisava de uma entrevista.

Andei até a proximidade do hotel, identifiquei um carro prata, semi-novo, película no vidro e dois políciais no interior. Era a única vigia que tinham deixado para o homem, seria fácil entrar sem que eles me vissem. A primeira oportunidade que tive foi na entrada de um grupo de dez turistas. Me infiltrei entre eles e cheguei à recepção. Eram todos estrangeiros de algum país de nome esquisíto, o que deixou o gerente doido. No canto oposto ao balcão havia um bar e eu me dirigi para lá na expectativa de tentar descobrir o quarto do pai da criança, de lá eu poderia ver e ouvir o que ocorria no hall do hotel. Tomei algumas doses de Wisky e depois de 25 minutos minha espera foi recompensada. O homem que eu tanto procurava acabava de vir da rua, parou no recepcionista e perguntou: “Algum recado para o 408?”.

Com a negativa do funcionário ele subiu para o apartamento. Paguei minha bebida em dinheiro e fui até um bebedouro ao lado da saída de incêndio. Evitei uma câmera que se mexia de um lado para outro e entrei na escadaria de emergência. Subi os quatro andares pulando dois degraus de cada vez. A porta do 408 estava aberta, uma mala à impedia de se fechar, acho que ele pretendia ir embora. Fui até lá e fiquei parado de frente para a porta. Geraldo apareceu com uma xícara de café na mão. Foi a primeira vez que vi aqueles olhos. Eles pareciam de vidro e sem sentimentos. A boca lembrava a de Maria, ou será que era a mesma boca da criança?

Depois de alguns segundos de espanto entre os dois, Geraldo se aproxima e abre um sorriso meio amarelo. “Posso ajudá-lo?” Era o mesmo sorriso falso que Maria me dava quando se irritava comigo. Aquela boca realmente foi roubada dela. “Preciso conversar com o senhor um assunto urgente”, eu disse. “Você é da polícia?”, ele me questionou. “Sou da imprensa e vim para ajudar o senhor”, retruquei. Ele me disse que não precisava de ajuda e que era melhor eu ir embora. Chegou mais próximo da porta, puxou a mala, pegou o trinco da porta e começou a fechá-la como se estivesse em câmera lenta. Rapidamente impedi que a fechasse, coloquei o pé de forma que interrompesse aquela trajetória. Não havia nenhum ruído no corredor, parecia não existir outras pessoas no andar, apenas eu e ele.

Peguei minha carteira de cigarro no bolso e acendi um Derby. “O que significa isso?”, me disse Geraldo com o rosto contrariado. Dei mais uma tragada profunda e soltei a fumaça por entre os dentes vagarosamente. Junto com aquela nuvem de nicotina sairam as palavras maquinalmente: “Monstro! Assassino! Sem entender o que eu dizia ele aproxima o rosto de mim e pergunta o que eu havia dito. Olho nos olhos dele, dou mais uma tragada e jogo a fumaça no rosto dele. “Você tem a boca dela”, afirmei como se contasse um segredo. Sem entender mais nada ele fez que empurraria meu peito e no reflexo dei um tapa na mão dele, apaguei o cigarro no ombro do homem e lhe empurrei com toda minha força. Ele tropeçou na mala e caiu de costas no chão. A xícara voou alguns metros para trás. Antes que pudesse gritar entrei no quarto e lhe chutei a boca. Fechei a porta e o arrastei pelos cabelos até as proximidades de uma mesa de canto.

Peguei um cinzeiro e bati com toda minha força na na cabeça uma vez, duas, três, quatro, cinco. Não conseguia parar de bater. O sangue jorrava e minhas mãos estavam completamente vermelhas. Joguei o cinzeiro em um tapete. Olhei para minhas mãos e tudo que eu via era o fim do mundo, uma cadeia nojenta e meu corpo pendurado e enforcado com um lençol. Quando olhei para o corpo a única coisa que vinha em minha mente era a boca dele. Era a mesma boca de Maria e estava suja de sangue. Peguei um lenço no bolso e limpei o rosto dele. “Essa boca realmente é a de Maria”, ressoava em minha mente. Passei mais uma vez o pano no lábio inferior e beijei aquela boca que seria de Maria. Também foi a última vez que vi aqueles olhos. (continua…)

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