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Biografia de uma pauta sangrenta – parte 18

Postado por João Porto on October 30, 2008 – 08:194 Comments
Por Leilane Menezes

O gosto de ferro em minha boca me chamava de volta à realidade. A vida agora parecia mais amarga do que sempre fôra. Por um minuto, aquele homem caído, sujo de sangue, com a força se esvaindo de cada poro, roubou toda a minha concentração. Assisti a cena como quem contempla uma obra de arte. Se pudesse, eternizaria o momento em uma moldura. Lembrei-me dos incontáveis corpos estirados em matagais, chãos de mármore de mansões e pisos de terra de barracos, tantas vezes reduzidos à condição de pauta para mim, em anos como repórter policial.

Recordei o sentimento de revolta e repúdio que me tomava a cada cobertura de homicídio. Desde a primeira vez, tentava entender como funcionava a mente de um assassino. Quanta frieza caberia em uma pessoa? Onde se escondem esses impulsos dentro do corpo humano? Quanto tempo a ira leva para ser construída? Naquela tarde, alguns minutos de descontrole me transportaram para o outro lado da história. E, ainda assim, eu continuava sem respostas. A morte é um fato previsível na vida. Talvez por isso não me despertasse culpa ou remorso a consciência do que acabara de fazer.


Minha fotografia estampada na capa do Metrópole, no entanto, não fazia parte dos meus planos. Alguns coleguinhas sentiriam orgasmos em publicar a minha cara na primeira página, sobre a legenda de ASSASSINO. Mentalizei a manchete em letras garrafais vermelhas, repousadas em um fundo preto. No melhor estilo “torce que sai sangue” de se fazer jornalismo. Definitivamente, essa idéia me assustava ainda mais que a certeza de apodrecer em uma cela cheirando a mijo.


A delegacia mais próxima do Maldoni é a 15ª, chefiada por Martha. Se tudo corresse bem, ela seria a responsável por solucionar mais essa complicação no caso Júlia. Ruim para ela, ponto para mim. Conheço as fraquezas de Martha e também a falta de capacidade dos agentes que a cercam. Tratei de apagar as minhas digitais do cinzeiro. Em seguida, guardei-o no bolso. Quem diria que o hábito de usar calças folgadas me daria algo mais que um ar de desleixo e conforto nas partes baixas! Item número um: arma do crime. Checado. Depois, enchi um balde com água e misturei um produto de limpeza de cheiro forte que estava encostado em um canto do banheiro.


Lavei o pedaço do carpete manchado de sangue, com o cuidado de esfregar bem. Um corte na mão poderia deixar escapar vestígios do meu DNA. Com o resto da água, ainda deu para ensaiar um último banho na cara do sujeito e lavar o resto do quarto. Apagar as pegadas seriam o maior entre os desafios. Em todo caso, as moças sorridentes da limpeza se encarregariam, inocentemente, de me providenciar esse favor.


Olhei ao meu redor e percebi, pela primeira vez, a minha função como personagem naquela história. Faltou-me o ar. Me dividi em dois. Era como se um eu pudesse ver a cena de fora e narrar uma matéria sobre ela. Enquanto o outro eu tentava escapar do pesadelo. Os olhos se abriam e era impossível acordar. Respirei fundo e busquei forças em meus pulmões atacados pelo consumo de cinco maços diários de Derbby.


Era hora de ir embora. A mala que outrora travava a porta, continuava lá. Algo nela me chamou a atenção. Abri o zíper e avistei um pedaço de papel amassado. A letra pequena de mulher grafava: “Te espero no bar, às 17h. As passagens estão compradas. Consegui as identidades com aquele amigo meu barra pesada, o Zaca. Finalmente vamos ficar a sós. Te amo”.


A ausência de uma assinatura alimentou minha imaginação. Aquele monstro teria uma amante, uma comparsa? Remexendo o conteúdo da mala, encontrei entre roupas, uma bíblia e um escapulário, a foto de uma menina loira. Ela não aparentava ter mais de 15 anos. A garota lembrava Helena, pareciam irmãs. Mas a ninfeta tinha um ar pornográfico, era quase má. A intuição denunciava que o texto no recado pertencia a ela.


Os barulhos de passos no corredor avisaram-me do perigo. Fechei a mala e notei que a escada de incêndio era daquelas que corta o prédio pelo lado de fora. Benditos sejam os hotéis à moda antiga. Desci os quatro andares com a nítida sensação de ter me tornado o mais novo produto de um mundo doente. Restava agora tentar moldá-lo às minhas perturbações. Pois nada do que é humano é limitado, nem mesmo a maldade. (continua…)

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