A escada dava em um beco sujo e com cheiro de mijo. Um bêbado dormia a um canto coberto por papelões molhados. Andei até a esquina da rua, de lá dava para ver os policias civis dentro do carro. Subitamente uma idéia me corroeu a mente, eu precisava falar com os policiais. Precisa ver o corpo mais uma vez, tinha de ser o primeiro. Sai do beco e caminhei pela calçada, dei a volta no quarteirão até chegar no hotel pelo lado contrário. Vagarosamente cheguei a viatura disfarçada, ao lado da janela do passageiro e bati duas vezes no vidro fumê com o calo do dedo indicador. O policial baixou o vidro de modo que só os olhos dele ficaram a mostra. “O que foi?”, questionou o homem e eu respondi em seguida. “Estou meio perdido. Procuro um tal Hotel Maldoni onde está hospedado um certo criminoso”, disse com uma boca de desdém.
A porta do motorista se abriu imeditamente e de dentro dela saiu um homem careca, alto e com uma barriga enorme. Desengonçado pelo peso puxou a arma com toda agilidade que o sedentarismo lhe permitia e apontou para mim. Ergui os braços e dei uns passos para trás. O passageiro saiu. Me virou de costas e empurrou contra a parede. “Será que eles já descobiram tudo?”, pensei. Uma multidão de curiosos já se reunia na calçada do outro lado da rua quando o homem que me revistava perguntou quem eu era. Respondi com duas palavras e toda a arrogância gerada pela minha profissão: “Imprenssa, porra!”. Foi a senha. Ele me virou de frente, o outro baixou a arma e logo começaram a me convencer de que eu não deveria estar lá. Depois de muita conversa eu disse que ia embora, mas de forma espalhafatosa mudei o trajeto e fui até o meio da rua, de onde disse em voz alta: “Há! Acho que vou passar a noite no hotel. Minha casa é meio longe”.
Os policiais sairam do carro rapidamente e vieram me encontrar na porta do Maldoni. “Tudo bem, você venceu. Nós vamos subir lá, mas você só fala com o homem se ele quiser”, me disse o careca. Concordei com a cabeça. Nós três nos identificamos na recepção e subimos em seguida. No elevador, comecei a transpirar muito e ainda não tinhamos passado o primeiro andar. Quando passamos pelo segundo uma tremedeira tomou conta da minha perna direita. No terceiro patamar a dupla policial já me olhou de modo estranho e quando chegamos ao andar me perguntaram se eu estava bem. Gastei uns cinco segundos para dizer que sim quando minha mente dizia. “Não, acabei de matar um homem e agora vou fingir que não tenho nada com o crime”. As palavras não sairam da minha boca, mas era a vontade que dava.
Toc, toc, toc. Ninguém respondeu. Toc, toc, toc. Silêncio mais uma vez. O careca que parecia o líder da dupla botou a mão na maçaneta, mandou me afastar mas eu não consegui me mexer. Em alguns minutos eles descobiriram o corpo. Eu estava para cair no chão, minha pressão estava baixando. De arma na mão os policias abriram a porta e entraram no apartamento. Eu corri logo atrás e tropecei na mala, trombei nos dois homens e cai ao lado do cadáver. Olhei mais uma vez aquela boca, já não era mais a de Maria, mas de um boneco de marfim vagabundo. Entrei em pânico, dei um grito e os policiais se assustaram também. Me arrastei até o outro lado da parede. Minha pressão estava caindo, meu corpo ficando gelado. Se aquela fosse a sensação de morrer ela se resumiria apenas em angústia. Antes de desmaiar ouvi uma última frase: “Merda! A porra da testemunha morreu! A única pessoa que tinha uma pista morreu”.
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Intrigante… a leitura que omeça pesada vai rapidamente se tornando gostosa…
Gostei, cara…
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Rodriguiano!