Abri os olhos e as formas embaçadas se reorganizavam lentamente. Gotas de suor escorriam pelo meu rosto e minha costa me fazia imóvel por estar colada ao plástico de uma maca. Eu estava dentro de uma ambulância parada. As portas estavam fechadas e eu podia ouvir uma barulheira de vozes que se misturavam, mais parecia um intervalo de show de rock. Me levantei, abri a porta e tudo fez sentido. As letras do hotel Maldoni nunca foram tão vermelhas. A perícia havia acabado de chegar e mais de 300 pessoas dentre repórteres, fotógrafos e curiosos já se aglomeravam para tentar dar uma espiada no corpo. Me levantei e desci do veículo. Quando encostei os pés no asfalto parece que de alguma forma chamei a atenção. Toda a imprensa se virou para mim ao mesmo tempo e correu, achei que fossem me linchar. Quando chegaram bem próximos agrediram meus ouvidos com uma chuva de perguntas. Descobri ali que eu fui o único jornalista há ver a vítima. Descobri também algo que me deixou em descompasso e reativou os momentos anteriores ao meu desmaio: eu matei um inocente.
Minha mostruosidade se converteu em um desespero pacífico. Eu queria pedir socorro, dizer que ele tinha de ser culpado. Que eu tinha feito Justiça, mas preferi me calar. O caso da menina morta tinha tomado proporções gigantescas a ponto do meu próprio editor aparecer no local, atravessar a multidão usando os cotovelos como remo, me pegar pelos ombros e mandar os outros jornalistas à merda. “Ele não vai dizer nada para vocês. Se quiserem saber o que ele viu, comprem o Metrópole amanhã”, gritou o editor e em seguida me arrastou para longe da ambulância. “O que está havendo? Você era o único na cena do crime e desmaia. Isso nunca aconteceu com você”, ele me disse. “Eu… eu… acho que estou trabalhando demais… deve ser stress ou cansaço”, afirmei. “Você tem alguma coisa pra gente?”, questionou o editor.
Refleti alguns segundos se deveria falar que tenho o furo do ano: jornalista mata pai de menina morta. “Sim.Vi a cena do crime, o defunto e acho que podemos fazer um material em primeira pessoa. Posso relatar como foi a subida até o quarto da vítima. A poícia já tem algum suspeito? Você tem alguma informação?”, perguntei ao homem ansioso por editar meu texto ao que ele rebateu. “A perícia acabou de chegar e não tem muita coisa. De fato, o cara era inocente do crime da criança e tinha alguma informação relevante que talvez pudesse ajudar a polícia em dois casos. O da própria filha e o de um esquema de corrupção. Acreditam que a mãe é a próxima vítima. Que os envolvidos nesse possível esquema estejam de livrando da família inteira”.
Meu corpo esfriava a cada gota de suor que escorria. Um medo dominava meu estômago e me deixava marejado. Minha mão esquerda dava leves tremidas sempre que alguém deixava de reparar em mim. Cada policial que passava, olhava como se eu fosse culpado. Além do editor, um fotógrafo e mais um repórter, um garoto de 23 anos, chegaram ao local. Eles iriam acompanhar o desenrolar do caso enquanto eu ia para a redação escrever minha parte da história, ou pelo menos a minha verdade. Chamei um taxi com um assovio. Entrei e mandei que me levasse a rua do jornal. Nenhum pensamento habitava minha mente, nem uma sobra de raciocínio. Era como se estivesse morto e fosse apenas um “sermovente”. O trajeto que durava 15 minutos parece ter sido feito em 30 segundos. Desci do taxi e deixei uma duas notas de 20, não perguntei o preço da viajem nem pedi troco. Minhas pernas me levaram até a recepção do jornal, em seguida pelas escadas. Tudo parecia apenas um traço de realidade. Até que tive uma visão. Era a minha Maria? Era a pequena Júlia? Não. Helena estava sentada em minha escrivanhia.
Me aproximei com cautela. Ela olhava para baixo e não me viu chegar. Perguntei a um colega próximo o que ela estava fazendo ali, ele disse que havia chegado há 30 minutos e não queria ir embora. Quando me aproximei ela levantou a cabeça. Os olhos pareciam ter estado em uma tempestade, era como se ela inteira estivesse molhada. A mulher se ergueu, me olhou o rosto com compaixão e eu senti um arrepio que só Maria me fez sentir. Por que eu não conseguia deixar de querer aquela mulher? Não conseguia deixar de desejá-la mesmo em meio a todo aquele caos. A dor é a mola que impulsinoa o amor, quanto mais dolorido, maior a paixão e a devossão. Ela não precisava me dizer nada, eu já tinha decifrado tudo. A peguei pelo braço e desci as escadas do jornal. A reportagem que ficasse para depois.
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eae, naum tem mais historia naum.
Mais genteeeeeeeeeeee!!!!!!!! Está bom de férias já, terminem ai afinal apenas uma pauta entre tantas, escrevam o 21º e fim.
COISA FEIA LIVROS FALTANDO AS PAGINAS FINAIS.