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Estudo aponta cobertura chapa branca

Postado por João Porto on December 14, 2008 – 13:184 Comments

Por Gustavo M. Braga  – da equipe Manual dos Focas

A cobertura do governo local feita por três dos principais jornais impressos diários de Brasília – cuja circulação média somada em 2008 chega a pouco menos de 90 mil exemplares por dia – está comprometida. Esta foi a conclusão a que cheguei na tese de monografia, “A cobertura do governo Arruda feita pelos jornais Correio Braziliense, Jornal de Brasília e Tribuna do Brasil”, defendida e aprovada em novembro deste ano pelo Centro Universitário de Brasília (UniCeub).

Sessenta e duas unidades noticiosas referentes ao GDF publicadas pelos três jornais foram escolhidas para observação. Dentre estas, comprovou-se que 84% tratam exclusivamente da agenda oficial do governo. Todas as reportagens sobre o GDF identificadas no Correio Braziliense se referem à agenda oficial do governo, 95% das reportagens sobre o GDF identificadas no Jornal de Brasília se referem à agenda oficial do governo e 68% das reportagens sobre o GDF identificadas no Tribuna do Brasil se referem à agenda oficial do governo. Os números comprovam a super exposição do GDF entre os veículos analisados.

Para chegar ao resultado, às edições dos periódicos Correio Braziliense, Jornal de Brasília e Tribuna do Brasil foram observadas entre os dias 11 de agosto de 2008 e 17 de agosto de 2008, segunda-feira a domingo. Todas as reportagens referentes ao governo do Distrito Federal, bem como os editoriais, foram selecionadas entre o conteúdo dos jornais analisados para o estudo acadêmico.

O predomínio de pautas que divulgam os feitos do governo indica uma posição política de aliança com Arruda feita pelos três principais jornais impressos da capital do Brasil. Tal posição resulta em um padrão seguido pelos veículos observados na forma como Arruda é tratado, tanto nas reportagens como nas fotos. As edições de quarta-feira, 13 de agosto de 2008, são o melhor exemplo para ilustrar a abordagem adotada pelos jornais ao se referir ao governador.

 

Vejamos o que foi publicado naquele dia:

Uma foto do governador em visita às casas destruídas por um incêndio na Vila Dnocs, em Sobradinho 2, poucos dias antes, aparece na capa do jornal de Brasília com chamada para a reportagem na página 2. A matéria ocupa a parte superior da página e tem o seguinte título: “Casas serão reerguidas”. O texto fala sobre os esforços do governador para ajudar as famílias desabrigadas.

Chama a atenção a assinatura da matéria: “Da redação, com agência do GDF”. Ora, a função da agência do GDF é, declaradamente, construir uma imagem positiva do governo! A foto que ilustra a matéria mostra o governador cumprimentando pessoas no local e traz o crédito de um fotógrafo do GDF.

Apesar de ocupar um espaço destinado a material jornalístico e ser apresentada como material jornalístico, o texto pode ser classificado sem margem de erro como uma propaganda do governo. Ao comparar o material noticioso da agência do GDF publicada no Jornal de Brasília com a matéria publicada no Correio Braziliense sobre o mesmo assunto e assinada por um repórter observa-se significativa semelhança entre os textos, escritos sob a mesma abordagem. O texto do repórter apresenta as mesmas informações que a propaganda do governo, com palavras diferentes. É uma paráfrase!

Reproduzo abaixo um trecho das duas reportagens. Comparemos os parágrafos, o primeiro publicado pelo Correio Braziliense e o segundo, pelo Jornal de Brasília. Ambos estão sob o mesmo intertítulo “Pró-moradia”.

“”O governo está fazendo a licitação porque todas as casas serão construídas com módulos de alvenaria com recursos da Caixa Econômica Federal (CEF). Assim, essas pessoas irão viver com dignidade e segurança”, explicou o governador. A Vila, que hoje abriga 480 famílias, está inserida no programa Pró-Moradia I, onde o governo local arca com 10% dos gastos com infra-estrutura e a CEF desembolsa 90% dos recursos. A previsão é que as obras comecem em três meses” (Correio Braziliense, 13 de agosto de 2008, pág. 28).

“O governador observou que os barracos de madeirite da Vila Dnocs estão com os dias contados. Com o programa Pró-Moradia I, o GDF construirá 480 casas de alvenaria no local. “Estamos em processo de licitação”, anunciou Arruda. “Vamos transformar a Vila, uma das regiões mais sofridas do Distrito Federal, em um bairro descente e digno”, garantiu (Jornal de Brasília, 13 de agosto de 2008, pág. 2).

Bate e assopra

Uma peculiaridade detectada no estudo é a linha de apontar diariamente problemas das cidades-satélites como praças e centros culturais abandonados, ruas sem asfalto etc. adotada pelo Tribuna do Brasil. É uma tentativa de se aproximar dos leitores de Classe C e D, sempre com reportagens de página inteira.

Entretanto, não há aprofundamento nas causas nem em como os problemas podem ser solucionados. Outra característica do Tribuna é, por meio da falta de contextualização, atribuir a responsabilidade exclusivamente a uma autoridade regional da cidade-satélite, o GDF nunca é responsabilizado ou sequer citado nestas reportagens.

Esta é a situação da cobertura do governo local em Brasília. Sem informações confiáveis a democracia e a população da capital ficam prejudicadas e se tornam vulneráveis. A lacuna da cobertura política de qualidade precisa ser preenchida com urgência para recuperar o direito das pessoas de acesso a informações qualificadas.

Contudo, em uma época de crise financeira mundial e fragilidade da mídia tradicional ocasionada pela força esmagadora das novas tecnologias – principalmente a internet – os veículos se tornam reféns, ainda mais do que em épocas passadas, das verbas publicitárias governamentais. E nós, leitores, indagamos com voz tímida e olhar dengoso: “E agora? Quem poderá nos defender?”.

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4 Comments »

  • Daniel Mello says:

    Bem interessante a pesquisa, excelente postá-la aqui. Só acho curioso que o Braga, mesmo com todas essas informações, tenha feito a famigerada matéria sobre o Setor Noroeste, com os mesmos pontos falhos apontados na monografia de conclusão de curso. Talvez seja uma tendência entre os jornalistas ter dificuldades em aplicar a academia ao cotidiano.
    Quanto a lacuna de quem defenderá a liberdade democrática e a livre informação ,não consigo pensar em outra resposta se não a Internet e as mídias alternativas, como este blog.
    Acredito que com o passar do tempo o leitor insatisfeito com as versões oficiais buscará cada vez mais outras fontes de informação.
    Mas para isso é importante que haja um compromisso ainda mais forte dos veículos que não dependem dos grandes detentores do capital em realmente serem independentes e apresentarem justamente as versões relegadas pelo mainstream.
    Totalmente na linha da pesquisa do post sugiro a leitura da reportagem de capa do Correio de hoje, sobre o PDOT(Plano Diretor de Ordenamento Territorial). Depois o leitor pode visitar o site do DFTV e dar uma olhada na série de reportagens que o telejornal fez sobre o mesmo assunto, só para efeito de comparação. Aí ficará bem simples de entender como o oficialismo pode acabar com o jornalismo.

  • João Porto says:

    Realmente o Daniel Mello implicou com o Braga, ou seria com sua matéria do noroeste. Hahaha.
    Enfim, tirando o #mimimi de lado a tese do Gustavo acontece com muita freqüencia mesmo, hoje (15/12) temos uma matéria de denúncia no caderno de cidades que não ganhou nenhuma chamada de capa.

  • victor martins says:

    Antes existisse só o oficialismo, existe outra doença na mídia brasileira, o jabazismo (não sei se com “s” ou com “z”). Em uma análise mais detalhada dos principais jornais da capital, poderá ser notado, às vezes explicitamente, noutras não tão descarado, um jabazismo nojento. Matérias “sérias” e assinadas por repórteres acerca da produtividade dos anunciantes, do quão são bondosos, lindos e cheirosos. Em algumas situações pode ser ordem da casa, em outras, cara de pau do repórter. Ninguém é inocente a ponto de acreditar que os jornais não tenham interesses políticos e economicos, só acho que é necessário ser um pouco mais honesto com os leitores. Apesar dos pesares, em certa medida, com seus defeitos e qualidades, a Veja e a Carta Capital acabam por ser veículos até honestos com os leitores. Pelos menos quem compra as duas publicações sabe o que está comprando. Não estou dizendo que a qualidade das publicações sejam ruins (eu trabalharia em qualquer delas feliz da vida e realizado), quero dizer que quando se lê qualquer das duas publicações, oleitor com mínima capacidade interpretativa, sabe exatamente qual a posição do veículo sobre cada tema.

  • Anonymous says:

    Senhores, precisamos de um levantamento semelhante aqui em Minas. O jornalismo chapa branca é descarado.

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