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Morre Kido Guerra, jornalista.

Postado por deco on April 16, 2009 – 19:045 Comments

Morreu na tarde de ontem Kido Guerra, jornalista de Brasília que já passou pelas redações de Istoé, Jornal do Brasil, Correio Braziliense, Greenpeace Brasil, BBC Brasil entre outros. Abaixo, o obturário do jornalista, feito pela repórter especial do Correio Érica Klingl.

 
Ele era músico de alma e jornalista de coração. Dono de um texto primoroso, Kido Guerra deixou ontem, aos 49 anos, as redações, assessorias de imprensa e rodas de conversa em Brasília mais tristes. O pai das meninas Anita e Isadora não resistiu aos problemas cardíacos que o levaram ao Hospital Brasília na semana passada e morreu no início da tarde. O corpo dele será velado hoje, a partir das 9h, na Capela 6 do Cemitério Campo da Esperança. O enterro está marcado para as 14h30.

 

Nascido Euclides Augusto Nascimento Guerra, Kido sempre se orgulhou de ter a história de vida confundida com a formação da nova capital do país, apesar de ter nascido no Rio de Janeiro. O jornalista veio para Brasília com apenas dois anos, em 1961. Ainda na juventude, destacou-se no mundo das letras. No científico, como era conhecido o ensino médio, foi monitor de redação. Talento que acabou rendendo o livro de crônicas Com o céu entre os dentes. A publicação de 2005 é um retrato do Distrito Federal de 35 anos atrás, quando Kido vivia os conflitos da geração libertária dos anos 70 e 80, criada debaixo dos blocos das asas Sul e Norte.

 

Kido tinha de memória a história desses tempos, que acabaram levando o jornalista para o universo das artes. A ponto de participar de uma banda de sátira musical chamada Beijo a 4, mais conhecida nas salas da Funarte (Fundação Nacional das Artes), onde se apresentava com frequência, como Pessoal do Beijo. “O bife à milanesa está imune a qualquer dor”, dizia uma das letras mais conhecidas do grupo de brincadeira musical naqueles anos de 1982 até 1984. O humor provocante também o levou a ser diretor e ator de teatro.

 

“Ele era um homem de muitos talentos. Adorava ser músico e tocava violão muito acima da média”, lembra-se o jornalista Pedro Paulo Rezende, amigo próximo e padrinho de uma das filhas de Kido. O carinho do jornalista pela música era fácil de notar. Em casa, todas as noites encontrava Estevão — nome carinhoso dado ao violão que tinha há mais de 20 anos e que dedilhava em dias tristes ou felizes.

 

Carreira

 
Kido trabalhou nos mais importantes veículos de comunicação do país e alguns internacionais. A paixão pelo jornalismo começou na Universidade de Brasília (UnB). Na instituição, começou a fazer direito, mas, atraído pelo charme das notícias, passou para o jornalismo. Logo no início, juntou as duas paixões. Começou no Jornal de Brasília como crítico de artes cênicas. De lá, veio para o Correio, onde trabalhou como repórter especializado na cobertura de eventos culturais, sobretudo música popular e teatro. Também passou pelo Jornal do Brasil, Jornal da Bahia e Istoé, em Brasília, Rio de Janeiro e Salvador.

 

Entre 1991 e 1993, foi o coordenador nacional de Comunicação e Assessoria de Imprensa da Greenpeace Brasil, sediada no Rio. De 1993 a 1996, morou na Bélgica, atuando como correspondente do Jornal do Brasil e da Rádio Suíça Internacional. Nesse período, prestou serviços eventuais como freelancer para a BBC Brasil e para o escritório da Rede Globo em Londres. De volta ao Brasil, retomou o trabalho no Correio por quase 10 anos. De julho de 1996 a março de 2005, passou por várias áreas dentro da redação, a maioria das vezes como editor em Brasil, Política, Suplementos, Cidades, Mundo, Coisas da Vida e Revista D. “Ele sempre foi um cara inovador, um jornalista de redação que sabia fazer os dois lados da notícia muito bem”, observa a jornalista Juliana Moreira Lima. “Ele foi meu primeiro chefe e tive sorte de conviver com uma pessoa tão especial.”

 

Nos últimos anos, foi produtor e âncora do programa Debate Capital, um programa de debates comunitários da TV Brasília, assessor de imprensa no Banco Central e gestor da empresa de comunicação Máquina da Notícia. “Kido deixou uma impressão única de correção e caráter. Vai deixar saudade”, afirma Marco Antônio Orsini, que trabalhou com Kido no BC há dois anos. “Ele tinha um talento de conter a tensão e passar segurança. Quando o bicho pegava, ele acendia um cigarro e tomava para si a responsabilidade”, completa Miguel Vargas, da mesma época, que fez questão de telefonar de Curitiba (PR) para falar sobre o amigo. (EK)

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5 Comments »

  • VICTOR says:

    será que a culpa foi da profissão e das noites mal dormidas, almoços e lanches fora de horário pela falta de tempo, além do stress causado pela dinâmica do jornalismo? Pode ser que não, mas nós temos que aprender nos cuidar melhor, fiar mais atentos a nossa saúde. Para o jornalismo e para a sociedade Kido Guerra é uma grande pela história que viveu e pela que ainda poderia escrever.

  • maria helena de carvalho says:

    somente hoje tomo conhecimento da passagem de kido guerra e uma saudade enorme me invadiu. no início dos anos 80 fomos colegas de redação no jornal de brasília. kido ao lado de pedro paulo resende integravam a editoria de artes&espetáculos, de então. lanmento por sua ida e lamento mais ainda não ter ido me despedir de vc,uma figura mais que brilhante, marcante. se a ida prematura de kido foi casuada ou não pelo stress do jornaismo, eu não sei. mas ele gostava de trabalhar com jornalismo e trabalhar com o que se gosta é uma felicidade. uma coisa é certa. em minha memória, kido vai ficar com aquele sorriso, entre tímido e maroto, com que ele entrava na redação e começava a escrever. naquele momento, ele estava pleno. agora, kido, vejo vc na plenitude como uma estrela a mais no céu, produzida pelas nebulosas e buracos negros da vida.

    um beijo,
    mari

  • Luiz Caversan says:

    Eh necessario nao esquecer que nossa profissao pode conviver com educacao, respeito, cavalheirismo, classe.
    Quem trabalhou ou apenas conheceu o Kido sabe que essa historia de gritaria, estresse desnecessario, “jornalismo nervoso” eh pura balela.
    Era sobretudo um gentleman, culto, modesto e companheiro.
    Deixarah boas lembrancas

  • Acho importante ressaltar que jornalismo não mata ninguém. Fatal, isso sim, é o estresse que a profissão quase sempre nos emprega. Escrevo esse comentário depois de um dia bastante corrido na redação. Escrevi quatro matérias de polícia hoje. Em uma delas, tive que me deslocar a uma favela (Vila Estrutural) e tentar conseguir com parentes e vizinhos detalhes da curta vida que teve um adolescente de 17 anos que acabou baleado no dia do aniversário de Brasília. Fui ao local pouco depois das 15h, logo depois de ter almoçado sanduiche Mc Donald’s, batata e refrigerante ligth. Mais tarde comi um salgado requentado da cantina do Correio Braziliense; comprei Coca-cola para acompanhar. Sai da redação pouco depois das 20h30. Muitos colegas ainda ficaram no jornal, no processo do fechamento.
    Mais um dia na vida de um jornalista recém-formado.

  • mariahelenadecarvalho says:

    … então, o que o luiz diz tem ciência. é possível, sim, ter um jornalismo como o descrito por ele, esse jornalismo até existe, mas que bom que a gritaria do fechamento, as explosões de raiva por um furo levado ou de alegria pelo prêmio por uma boa reportagem, quebram a monotonia de dias ditos “normais”. mas vai me dizer, deco, que o dia de ontem não vai ficar pra sempre em sua memória? o jornalismo é isso mesmo. ontem vc escreveu 4 linhas, mas alguém em alguma redação de jornal do planeta colocou na manchete apenas uma ou duas palavras que podem ter ajudado a mudar alguma coisa na vida de alguém. Temos exemplos recentes, foi assim com “Impeachement já” ou com as “Diretas Já”. Sobre manchetes – e a nossa profissão é pródiga em nos fazer contadores de casos e fatos – me ocorre um exemplo dado por joão bolão, mancheteiro do jornal correio braziliense nos idos da década de 1980, quando um atentado a bomba matou o presidente da nicarágua, anastácio somoza. ele foi simplesmente brilhante: “Implodiram Somoza”. Outro exemplo. Um jornalista, então chefe da sucursal do jornal O Globo, em Recife, quando mataram Martim Luther King: “Um branco assassinou a paz”. 5 palavras. apenas 5 palavras mas definitivas.

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