Por Deco Bancillon
Da equipe Manual dos Focas
A julgar pela gravidade com que a gripe suína atinge povos de todo o mundo, o Manual dos Focas publica, na íntegra, relato de um brasileiro que se vê no epicentro do caos. O promotor de justiça Diaulas Ribeiro, do Ministério Público do DF e Territórios, mandou texto onde descreve a agonia dos mexicanos pelo mal que lhes acomete. Diaulas desembarcou na Cidade do México para conferências e seminários e só deve voltar a Brasília na próxima semana, quando, preveem, o deixarão embarcar num voo com destino à capital brasileira. Abaixo, o texto enviado pelo promotor, publicado nessa terça-feira no blog da Samanta, repórter especial do jornal Correio Braziliense.
“Cheguei no México ainda escuro, o dia estava amanhecendo; dentro do aeroporto, não percebi nada. Mas logo que tomei um táxi notei que a cidade do México não era a mesma. Esta é a quinta vez que a visito; somos, portanto, velhos conhecidos. E não havia, ao contrário das vezes anteriores, o trânsito caótico de uma das maiores cidade do mundo: 25 milhões de habitantes. Perguntei ao motorista o que se passava. Me informou que as aulas estavam suspensas porque havia um surto de gripe suína (aqui se diz un «brote de influenza porcina»). Informou-me que havia algumas mortes, sem indicar números, contudo.
Após um breve descanso no hotel, fiz o que sempre faço aqui para passar o jetlag: me dirigi à Livraria Porrúa, em frente ao Museu de Belas Artes, uma das editoras mais prestigiadas em língua espanhola. Lá, onde sempre fui atendido como um amigo da casa, desta vez a cordialidade deu lugar a um tratamento distante. Meus amigos perderam o rosto. Sim, todos usavam má! scaras cirúrgicas (cobrebocas ou tapabocas, na linguagem local). Insisti em não usá-las. E sem máscaras, parecia um «estrangeiro» entre os nativos. Fui tomado pelo pânico e pelo medo. Voltei para o hotel. Liguei a televisão e me dei conta da gravidade do que estava acontecendo.
Não poderia ser uma mera «psicose». À frente da comissão de crise estava o próprio presidente da República, Felipe Calderón, que anunciava 68 mortes, 23 confirmadas em decorrência da gripe. Morreu, inclusive, o diretor do Museu Nacional de Antropologia, o mais importante do México e um dos mais importantes do mundo. Em seguida, veio o cancelamento de todos os espetáculos públicos, de todas as sessões de cinema, de todas as missas. As partidas de futebol foram mantidas, mas sem público. A trasmissão foi feita pela televisão, o mesmo ocorrendo com as missas, inclusive na Catedral de N.S. de Guadalupe.
Me convenci que o caso era gravíssimo e saí para comprar o Tamiflu, um antiviral que já produziu resultados contra esse vírus e que tem venda livre aqui. Sei que não poderia tomá-lo preventivamente, mas não tive outra iniciativa senão ter uma arma na mão. Não o encontrei. O Tamiflu, em farmácias, está esgotado, como esgotadas estão as máscaras. Acabei ganhando uma do Exército, que distribuiu, em um só dia, 6 milhões. Mas uma máscara só dura algumas horas. Cumpri uma agenda breve na Cidade do México e me impus um cerco no quarto do hotel.
Domingo, levantei-me cedo para seguir viagem para Mazatlán. Depois de responder questionários na saída e na chegada, e passar por inspeção médica, tomei o voo 2512, feito em um Embraer 145. Já me sentia em casa.Uma hora e meia depois avistei o mar e desci para o meu compromisso final. Apanhado no aeroporto por amigos da Universidade, comecei a me sentir aliviado, a bordo de um Gol, feito aí no Brasil e batizado aqui como Pointer. Afinal, o surto estava restrito à capital e a dois ou três estados próximos. Mazatlán está fora da rota dessa peste do século XXI. Engano meu.
O Governo Federal acaba de suspender, também aqui, todas as atividades coletivas, incluindo aulas e duas das três conferências que preparei. A única mantida será para juízes e promotores da região, com um público inferior a 100 pessoas. O restante do evento será cancelado.
Se o evento foi cancelado, vou embora antes. Fui à agência de turismo trocar o meu voo. Quero voltar o mais rápido possível. Outro engano: estão falando em «cerco sanitário». Pelo menos por enquanto, não poderei sair. Devo aguardar as novas decisões governamentais. Mas sinalizam que só se poderá movimentar no país depois do dia 6 de Maio. Para quem está sitiado, isso é mais do que um século de espera. E quanto mais tempo, mais medo de ser alcançado pelo vírus. Esse medo me trás à cabeça dois livros: A peste, de Albert Camus, e Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago. Nunca pensei que passaria por uma situação exatamente como as descritas por esses autores. Mas é assim que me sinto. Com medo de ser o próximo. Já confirmaram 143 mortes.
O medo nos impõe alguns cuidados que poderiam parecer ridículos em outros cenários: não cumprimentar com aperto de mão ou com beijinhos, tocar dinheiro com nojo.
Devo um registro final: poucas vezes vi tantas iniciatias de um Governo, que assumiu responsabilidades, rompeu diferenças políticas e partiu para o ataque ao vírus, que apesar de invisível, recombina-se e renasce, a cada infestação, como um gigante capaz de repetir a saga do seu parente europeu que, no começo do século passado, matou mais de 40 milhões sob o rótulo de Gripe Espanhola. Por fim, sair daqui é uma atitude egoísta. Os mexicanos não têm alternativas e deverão ficar até o fim do fim. Mas em tempos de cólera, de peste ou de pandemias como esta, salve-se quem puder. E é isso que eu quero. E espero… que compreendam o meu egoísmo.
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