Diário de um foca: Palhaçada sem graça
Cristiano Zaia
Especial para o Manual dos Focas
Quando estava no primeiro ano de faculdade, nem sabia o que vinha a ser “foca”. Só descobri quando cheguei a uma redação. Continuo foca e nos primeiros contatos com os atalhos de uma apuração jornalística, eu parecia ainda mais com esse animal. Mesmo assim, é coerente aprender com os escorregões dos mais velhos. Ajuda a errar menos e blinda o novato de prováveis esporros gratuitos. Assim, escolhi contar uma valiosa lição profissional que me ensinou a tomar cuidados essenciais para qualquer jornalista.
Como demorei um pouco para ingressar na universidade, comecei o curso de comunicação social com toda empolgação de um foca. Logo que entrei, tratei de participar do Blog do Cacom (Centro Acadêmico de Comunicação), composto de estudantes dos primeiros semestres da habilitação Jornalismo. Estava no segundo semestre e, por causa da vontade e disposição, já havia colecionado matérias e aprendizado, que incluíam entrevista com um candidato a governador do DF, extensa cobertura da Parada Gay em Brasília e reportagem especial sobre os personagens mais antigos da UnB. Mas a maior lição ainda viria.
Sempre propus pautas – dever que faz o jornalista em geral, não só o foca, ser respeitado e valorizado. E na última que sugeri no blog, decidi acompanhar o dia de um grupo de palhaços que faziam trabalho voluntário em hospitais, o Risoterapia, inspirado no “Doutores da Alegria”. Uma colega de blog tinha o contato de um desses palhaços – Moisés – e me passou por e-mail. Marquei de encontrá-lo no dia seguinte. Ao longo da reportagem, no entanto, tudo desandou. Ele havia mentido e não era do grupo do riso voluntário. Andava apenas com a esposa pelas ruas da capital federal, pedindo uma “contribuição” para que pudessem comprar brinquedos e doces usados no “trabalho voluntário”.
Até então, a idéia de produzir uma reportagem participativa me comovia e até aceitei que pintassem meu rosto como eles. Meu grande erro, entretanto, foi não checar a informação. Moisés não era palhaço voluntário e sim, apenas alguém que pedia dinheiro – ou esmola – nos coletivos da cidade, mostrando para os passageiros fotos de uma única – descobri na apuração – visita a pacientes.
Fui desmascarado, porém, somente no fim do dia, quando, muito tempo depois de insistir, fomos ao Hospital Universitário de Brasília. Eles fizeram suas palhaçadas na sala de espera da pediatria e alegraram habilmente o local. Mas foi preciso uma profissional responsável pelo trabalho voluntariado do hospital para me abrir os olhos. Uma série de curtas perguntas comprovou que eles não eram voluntários. Fiquei literalmente com cara de palhaço. Ela fez o que eu já havia ter feito no telefone, no momento de marcar a entrevista.
Tive que passar todo um dia ao lado dos falsos palhaços voluntários, até almoçando com eles, para aprender que jornalista precisa confirmar a existência de um fato.
Por isso, desde então, aprendi que é preciso:
- Nunca subestimar uma pauta, ela pode exigir mais atenção do que aparenta;
- Ser mais desconfiado que o normal e não render à empolgação de uma pauta: ela pode ser furada;
- Buscar o máximo de informações possíveis sobre a pauta e sempre checar a informação com mais de uma fonte;
- Procurar provas (documentos, outras reportagens) e detalhes que identifiquem que a informação procede e confrontem a fonte com as informações relatadas por ela;
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Boa lição.
Ótima lição. Senti até um arrepio na espinha por você.
Acho que esses problemas pioram no telejornalismo, existem pessoas que fazem de tudo para aparecer na televisão, até inventam histórias.
É necessário sempre checar a informação.
Muito bom teu post.