Diário de um foca: o dia em que virei fonte
Deco Bancillon
Da equipe Manual dos Focas
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Coluna em três tempos. Cada qual à sua maneira. Um só assunto.
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O esporro
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Nunca pensei em ser fonte. Quiçá dar entrevista. Mas fiz. E já me arrependo. Sobretudo porque me formei jornalista. E lá aprendi a fazer perguntas, obter respostas, questionar o mundo. Aprendi a não deixar que te enrolem, a fugir de respostas prontas, a ser repórter.
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Estar do outro lado é dar a cara à tapa. É se arriscar num jogo que não é o seu. O jornalista que se deixa entrevistar (em assunto que não trata de imprensa) joga numa posição desconhecida. Se expõe e aceita o risco de recorrer a frases prontas. A achar que tudo sabe e que sua opinão tem poder ditar o que quer que seja. Produz factóides de si mesmo.
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A surpresa
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Nesta semana, recebi um email de um jornalista que me pediu entrevista.
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Imaginei ser algo sobre o blog. Mas vi que se tratava de economia. Pensei, então, que procuravam pessoa que acabara de aportar em tal assunto. E até me fiz explicar (convencendo a mim mesmo) que, de fora, o jornalista poderia ter visão menos comprometida da cobertura.
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E errei novamente.
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Descobri do que falaria somente quando chegaram as perguntas. Quatro das quatro diziam respeito aos rumos da economia. Tinham como base questionamentos sobre a política de medidas e a crise financeira. Perguntas que se faria para um economista com experiência de mercado. E títulos. Não a um foca recém-formado e que mal acabara de pisar numa redação.
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Por isso pensei em não responder. Mas me corrompi. E mandei um texto com respostas que fui treinado a ouvir das pessoas que entrevisto. Reproduzi ideias que não eram minhas. E apesar de terem saído de minha pessoa, acabei sentindo um estranhamento quando as vi publicadas abaixo de minha foto.
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O resultado
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Ver seu nome numa manchete choca num primeiro momento. Sobretudo quando percebe quão grande foram as palavras que lhe saíram à boca.
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Até minha foto achei estranho na página da web. Um sentimento de êxtase (narcisista) e medo por ter conferido ao assunto opinião contundente. Quem penso que sou para opinar sobre os rumos da economia.
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Quantos não foram os leigos que deram com os burros n’água ao tentar prever um juro sequer.
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Por que então fiz aquilo? Nem eu sei. Mas pensarei mais vezes se me chamarem novamente.
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leia aqui a entrevista
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Querer entrevistar um jornalista já é uma iniciativa desaconselhável, salvo nos casos em que se trata de notório conhecedor da causa, que está lançando um livro, por exemplo. Sem falar a situação complicada de dar opiniões pessoais sobre assuntos que podem estar relacionados a sua fonte.
Imagine como eles devem se sentir sentados a nossa frente, frenéticos com o gravador ligado.
Abraço!
Já tive que dar algumas entrevistas mas sempre explicava que falava como militante e não como jornalista. Mas mesmo assim é sempre uma situação bastante complicada estar do outro lado.