Artigo: os males do jornalismo declaratório
Por Luciano Martins Costa, retirado de O Observatório da Imprensa
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Os jornais ainda fazem o rescaldo da crise do Senado, que pode deixar sequelas no Partido dos Trabalhadores (PT), mas não apresenta sinais de haver abalado a aliança que sustenta as propostas governistas. O costumeiro desfile de declarações segue ocupando o lugar do melhor jornalismo, que sempre se baseia na prática da boa e fiel reportagem.
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O problema principal do jornalismo declaratório é que o material oferecido aos leitores resulta sempre de um critério centralizado de escolhas, induzindo-os a acreditar que se trata de um resumo das opiniões dos entrevistados, quando na verdade se trata de composições fortemente influenciadas pelas intenções de quem edita.
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Diferentemente de uma entrevista do tipo pergunta e resposta, na qual o entrevistado tem a oportunidade de expor seus pontos de vista e o entrevistador o estimula a aprofundar-se evidenciando suas contradições, nas declarações colhidas a esmo o declarante fala profusamente, sem ser interrompido, e depois o editor faz a seleção do que entende mais adequado.
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O problema é que nem sempre o declarante reconhece no que foi publicado a inteireza daquilo que declarou. Mas quase nunca se queixa, pois nenhum deles quer perder seu espaço no noticiário.
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Na muda.
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O material jornalístico por excelência é a reportagem, que consiste na coleta de dados, descrição e narração, sempre procurando explicitar o contexto em que tais fatos ocorrem. As declarações inseridas em reportagens sempre devem se referir aos fatos relatados, o que dá às palavras do declarante um valor informativo maior do que o da sua própria opinião.
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É por essa razão que os repórteres são orientados a qualificar cada entrevistado, inclusive, quando conveniente, informando sua profissão e idade, para dar ao leitor uma idéia da credibilidade que pode ter sua declaração.
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Se o leitor atento é do tipo que guarda jornais velhos, um exercício interessante de observação consiste em reler manchetes publicadas nas últimas semanas, quando a imprensa cobriu muito intensamente a crise no Senado. O leitor vai notar, por exemplo, que o senador Arthur Virgílio desapareceu do noticiário logo que se configurou a intenção de seus adversários políticos de julgá-lo no Conselho de Ética.
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Será que Virgílio, que era o campeão das declarações, simplesmente entrou na muda ou os editores é que decidiram poupá-lo?
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O leitor nunca vai saber.
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