O rádio embebeda – dicas para quem quer enveredar por este vício
Morillo Carvalho
Especial para o Manual dos Focas
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O plantão de sábado começa às seis da matina na Nacional da Amazônia – uma das poucas rádios brasileiras que ainda funcionam em ondas curtas, que não existem mais nos dials dos rádios de cidades como Brasília, que possuem apenas AM e FM. O desafio é fechar os últimos detalhes para o noticiário que começa logo mais, às sete. Uma revista de uma hora de duração, com notícias, quadros de curiosidades, músicas, uma delícia de programa. Eu era o editor da vez, e na equipe de jornalismo da emissora, o editor é quem apresenta. Todos revezam a edição e podem dar a sua cara ao programa, ainda que se siga um roteiro mínimo. Tudo certo, programa redondinho, vamos para o estúdio.
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Bom dia Amazônia, são 7 horas em Brasília, 6 em Rio Branco. Eu sou Morillo Carvalho, fico com você pela próxima hora. Vinheta de abertura, destaques da edição e Seu Jorge com “A musa do condomínio” para o programa começar animado. Tudo corre na normalidade, até que 7h45 o apresentador do rodízio, que fica no ar das oito ao meio-dia, entra no estúdio, desesperado porque não recebeu o roteiro da produção dos dois programas que comandaria na sequência. Ele e a repórter que está comigo começam um trabalho ensandecido de busca pelo roteiro e ligações para os produtores.
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Cinco, dez, quatorze minutos após e nada. São 7h59, decido “esticar” o programa para ajudar o colega, mas, sem muito o que fazer, encerro às 8h03. E angustiado, pois atrasos são imperdoáveis em determinadas emissoras. O apresentador senta na cadeira, pedindo que o operador diga as entrevistas que estão no ponto para entrar – o programa reprisaria as principais entrevistas que rolaram na semana na programação – e, um segundo antes de o microfone ser aberto para que ele se apresente, encontro o roteiro dentro de um envelope de um disco de vinil, junto com a lista mandada pelos programadores musicais da rádio. Alívio. Tensão se desfaz. Cigarro.
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No pós-tensão amenizado pelos tragos e tagaladas de café, comento com outra colega, a comunicadora Beth Begonha, o quanto é difícil ser apenas um repórter, e não um comunicador. Estes sabem o que fazer para não deixar a peteca cair e continuam no ar, seguros e cheios de informação, por quanto tempo quiser. “Calma, Morillo. Você chega lá”. É. Quando comecei no rádio, há quase um ano, sabia que era esse o caminho que deveria seguir. O rádio exige isso de seus profissionais: saber reportar, editar, redigir, apresentar e, enfim, se comunicar, ainda que determinadas coisas deem errado.
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Isso é o rádio. Na Agência Brasil, outro veículo da casa em que trabalhava até então, todos os repórteres devem fechar matéria também para o serviço de radiojornalismo da EBC, e foi só experimentar esse pouco de rádio que ali se faz que fui buscar mais, passando a integrar a equipe da emissora amazônica pouco mais de um ano após entrar na agência eletrônica. “Cuidado para não se embebedar: vc vai ver que o Rádio é, realmente, uma deliciosa cachaça”, foi o recado da chefe de reportagem da Agência, em minha despedida. Ouvi o mesmo da editora de Cidades do Correio Braziliense, quando fui justificar minha saída do jornal para a EBC. Só que ela se referia à redação de impresso.
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São cachaças diferentes, tensões diferentes. Nada explica a tensão do fechamento da edição de jornal. Clima de frenesi, com gente gritando e correria para não prejudicar o fluxo das máquinas de impressão. Vicia, mas minha cachaça é outra. No rádio, menos animosidade. A tensão se cria e se desfaz em 20 minutos (tempo em que realmente, com o perdão da citação, tudo pode mudar). O que embebeda é a proximidade com o ouvinte. No caso da Nacional da Amazônia, essa relação é quase de intimidade.
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A quem deseja fazer rádio, algumas dicas podem ser úteis. A primeira é: cuidado com a voz é premissa (sabe o show do ano, que vai acontecer bem tarde da noite e será motivo de vários ‘u-huuuuls’? Talvez seja melhor sacrifica-lo. Rouquidão não costuma ser bem vista pelas chefias). Voz é como impressão digital e é por ela que os ouvintes o identificam, por isso, a impostação não é tão necessária. Aliás, não se faz mais rádio como em 1950, portanto, voz impostada é quase démodé. No entanto, uma forcinha para acentuar graves e agudos pode ajudar – meu caso, já que a natureza me deu voz de agudos de heavy-metal.
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Outra dica: é bom tentar aventurar-se em estágios, pois se a oferta de empregos para jornalista é escassa de um modo geral, quiçá para quem quer reportar no rádio. E conforme-se, pois o pensamento de que é uma mídia que caminha para o desaparecimento (embora pesquisa do Ibope para orientar anunciantes, o rádio fique com o consumidor 17% mais tempo do que a televisão) faz com que o veículo seja um dos que paga menos. E, se o trabalho é em uma emissora all-news, o ritmo de trabalho é dos mais intensos.
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Quanto ao texto de rádio, apenas uma opção: a síntese. E com linguagem simples. Sempre. Adeque-se à realidade da emissora. Na Rádio Justiça, onde já trabalhei, o público é majoritariamente ligado ao meio jurídico. Portanto, dizer que “o ministro julgou improcedente a ação” pode não ser tão grave. Mesmo assim, opta-se por usar esta forma apenas em último caso. Já na Nacional da Amazônia, “inconstitucionalidade” é termo de extrema última opção. “Está em desacordo com a Constituição”, “fere a Constituição” são opções bem mais aprazíveis para um público de natureza bem mais simples. Textos muito longos e sonoras com mais de 30 segundos podem tornar sua matéria um exercício extenuante.
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Outra valiosa dica que recebi antes de começar a beber da cachaça-rádio: o texto deve ser narrativo e descritivo, especialmente em coberturas ao vivo (ah, rende uma coluna inteira falar sobre coberturas ao vivo em rádio). O dever é recriar a imagem que você vê na mente do ouvinte, usando as palavras – enquanto em televisão, o texto complementa a imagem e/ou vice-versa. E generalidades não são bem-vindas: você pode dizer que está numa enorme área de 12 mil metros quadrados. Uns têm exata noção do que são 12 mil metros quadrados. A maioria, não. Portanto, “estou num local que tem o tamanho de 12 estádios de futebol. São 12 mil metros quadrados…” pode soar bem melhor.
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E o mais importante de tudo é a lição que aprendi no dia em que extrapolei três minutos do encerramento do programa sabatino: o profissional de rádio tem que aprender a se virar. Poderia ter que ficar mais tempo? Poderia. Controle emocional, busque um texto na internet com alguma novidade, ponha um ouvinte na linha, chame uma música… E entenda que, no rádio, se é repórter, editor, locutor, apresentador, muitas vezes tudo ao mesmo tempo.
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