Saturday July 31st 2010

Manual estreia coluna Me formei. E agora?

desempregoQuantos de nós perderam noites de sono temendo o desemprego? Quantos não foram os estudantes de jornalismo que, de uma hora para outra, deixaram de ser o “futuro da Nação” para se tornar um “problema social”? Quem, de verdade, não sonhou ser convidado para trabalhar em um grande veículo assim que terminasse o curso, apesar de só ter escrito matérias para o jornal laboratório?

Sim, caros focas, sabemos bem o que é passar por essa situação. Lembramo-nos dos dias corridos da faculdade, dos últimos trabalhos, das festinhas de despedidas em nossos estágios e da cobrança. E não me refiro aos tapinhas nas costas de boa sorte, mas da cobrança implícita que depositam em nós assim que ganhamos o canudo.

Por isso, nasce o Me formei. E agora? A coluna semanal vai contar os detalhes do momento mais decisivo da nossa vida profissional. O vai ou racha. O agora ou nunca. Quem abre esta seção é o nosso editor de conteúdo, Deco Bancillon. Antes de se formar, o já workaholic jornalista fez de tudo para ser contratado no estágio. Mas deu com os burros n’água. Tempo depois, a sorte lhe mostrou a cara, e hoje Deco ocupa vaga de repórter em um jornal em Brasília.

Me formei. E agora? Bem vindo ao mercado, jornalista sem emprego

Deco Bancillon
Da equipe Manual dos Focas

Brasília - Aconteceu de uma vez, sem que alguém me avisasse. De uma hora para outra, me vi disputando vaga no mercado de trabalho. Olho por olho. Dente por dente. O estágio havia chegado ao fim. E eu não seria efetivado. “Não há vaga, Deco. Pedi que criassem uma, mas não vai rolar. Sinto muito”, me disse, à época, o editor, um sujeito galante, cabelos longos, barba por fazer e muito competente.

Ele continuou a cartilha do “foi bom enquanto durou, mas agora é com você”. Lembrou-me que o jornal estava em situação de contenção de despesas. E prometeu me indicar para algum freela, caso ele soubesse de algum. Como derradeiro gesto cavalheiresco, lutou para que a última matéria que eu propusera ganhasse a capa do caderno.

E foi tudo o que recebi por um ano e dez meses de suor e trabalho duro. Isso e um vale-peru (o bônus de Natal dado aos funcionários), que equivalia, na ocasião, a menos da metade de um salário mínimo.

Não era o que eu esperava ouvir após ter feito o que fiz. Lembro-me do dia em que o mesmo editor me ofereceu estágio no caderno de Economia, alvo das minhas investidas durante longos meses. Muito calmo, me explicou que eu faria personagens para os repórteres, mas que minha prioridade seria produzir uma coluna de marketing. E mais nada.

A leitura que se podia fazer da proposta é que eu seria um jovem felino que batalha por carcaças podres descartadas pela alcatéia. Nadaria no limbo do jornalismo. Teria menos espaço no jornal que o tiozinho do Xerox. Ou seja: me convenceu na hora!

Em dez meses, percebi que a forma como se veste conta muito para um jornalista de economia. Aprendi que nunca se pode confiar numa só caneta; ou mesmo no gravador, que insiste em falhar nos momentos em que mais precisa; ou no lide e suas perguntas banais, que só respondem aos dois primeiros parágrafos.

Nesse tempo, pelo trabalho, desperdicei a chance de me tornar repórter de um jornal de um grande grupo editorial de São Paulo, talvez o maior do país, por achar que, quando acabasse o estágio, seria contratado de pronto. O que se mostraria, meses depois, ser uma aposta infeliz.

Não por eu ter perdido a chance de impressionar bons professores na faculdade, que nunca entenderam meus atrasos sempre justificados pelos prazos curtos do fechamento. Não por ter acumulado peso, ter deixado de ler os livros-reportagens que me fizeram querer ser jornalista. Ou muito menos pelas inimizades que fiz por ostentar uma metidez boçal, como é boçal toda metidez, seja ela qual for.

Os dez meses que passei no estágio que sempre sonhei fazer fizeram eu me tornar o babaca que tento não ser todos os dias. Um boçal jornalista com quem simpatizo. E com quem converso sempre que volto sozinho para casa, após um duro dia de serviço. Mas também me mostraram que persistir vale a pena.

E foi o que fiz. Mesmo decepcionado, aceitei a notícia do desemprego. O prometido freela que meu ex-editor havia mencionado realmente rolou. Mal concluí o serviço, surgiu um novo, cuja indicação partiu de um colega da época do estágio. Em um mês, pintou convite para voltar para o grupo editorial que fiz estágio, para cobrir economia em um jornal menor. Sete meses depois, me convidaram a retornar para o lugar que sonhei não deixar quando me formei.

Deu certo!

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