Não somos mais o quarto poder

Certo dia uma estudante me fez uma série de perguntas sobre jornalismo. Como já havia passado por todos aqueles questionamentos durante a faculdade ao fazer alguns trabalhos e, passado alguns anos, já podia comparar a teoria à prática, tomado de uma liberdade usual e um tanto petulante para um foca, respondi em tom de artigo professoral. Peço aos leitores mais velhos que não me julguem mal, mas realmente sou um pouco abusado. Seguem minhas considerações acerca do quarto poder.
Victor Martins
Da equipe Manual dos Focas
Hoje em dia vejo o jornalismo como um misto do idealismo que conheci na faculdade e do realismo conhecido no dia a dia das redações. Se formos falar do ponto de vista teórico observando o que é a república, diria que a imprensa talvez possa ser enquadrada como um quinto poder e não mais o quarto. Digo isso porque hoje existe a figura do Ministério Público, com uma força de investigação e denúncia muito mais intensa que a dos repórteres e meios de comunicação.
De todo modo, a imprensa nunca deixará de ser fonte informativa, prestamos um serviço à sociedade. Nós não a representamos, somos pagos pela população para lhes contar os principais fatos da cidade, do país e do mundo. Não representamos as vontades do povo, para isso existe a Câmara dos Deputados e as assembléias legislativas. Enquanto repórteres representamos, ná prática, a nós mesmos e o nosso patrão. Não fomos eleitos pela população para sermos jornalistas. Não escrevemos somente sobre aquilo que o público quer ler, escrevemos acerca daquilo que julgamos que eles precisam ler e, muitas vezes, falamos sobre o que as pessoas não precisam ler e nem tem interesse de saber.
Quando temos uma pauta não questionamos ao leitor se ele quer ou não aquilo no jornal que assina. Pergunamos sim ao nosso editor o que será publicado. Avaliamos a história para ver se ela tem noticiabiliade. Por isso, nós não podemos representar a sociedade. Mesmo que por vezes a sociedade nos confunda com os poderes públicos.
Na minha época de jornal popular, quando eu fazia polícia e cidades, cansei de receber ligações de pessoas que queriam registrar ocorrência de furto e roubo. O que eu podia fazer? Orientar a pessoa a procurar uma delegacia, por mais que ela não acreditasse que fosse resolver o problema.
Podemos ser considerados uma espécie de “cão de guarda da sociedade”, uma expressão talvez muito mais acertada do que “polícia cidadã”. No meu atual ponto de vista, somos esse cão muito mais por instinto do que por uma bondade e senso de justiça. O instinto do cão imprensa é o de ver o ponto fora da curva e alardear a existência dele, como quando um bandido entra em uma casa e o cachorro late para acordar o dono. Todo ponto fora da curva é pauta. Tudo que estiver fora do lugar pode ser uma matéria, por isso passamos a sensação de estarmos de olho e fiscalizando.
Somos obcecados por pauta e reportagem. Realmente estamos fazendo essa investigação constante do dia, mas a fazemos por instinto, para ter a mancehte do dia seguinte. Confesso que quando pegamos um corrupto, denunciamos um picareta, temos a sensação de dever cumprido, de que fizemos nossa parte para construir um mundo melhor. E é nessse ponto do discurso que voltamos ao idealismo da faculdade. Somos um misto de sentimentos e ações contraditórias, como rege a teoria de múltiplas identidades. Fazer jornalismo é representar o seu patrão, se representar, preocupar-se com o salário para sustentar a família e esperar que o seu trabalho possa ajudar a construir um mundo melhor.
Nítidamente os jornais preferem as matérias de denúncia ao serviço. Vende mais. A audiência e a repercussão são maiores, o que significa reconhecimento e mais dinheiro no fim do mês. Por isso a imprensa se tornou muito mais fiscalizadora do que meramente informativa. Porque o ponto fora da curva é matéria e denúncia vende mais.
Me perguntaram se conheço alguma empresa jornal que funciona como um “quarto poder”. Na verdade todos os jornais tem um pouco dessa funcionalidade. Principalmente os populares, que quando são bem feitos orientam a população quanto aos seus direitos e deveres e também fazem denúncias bem próximas a vida de uma comunidade. Ainda assim, não sei se os jornais são capazes de tornar os cidadãos plenamente concientes dos seus direitos e deveres. No fim das contas, algumas entidades fazem um pouco disso de incentivar as pessoas ao interesse público, incluem-se os jornais e algumas ONGs, como a Transparência Brasil, o Contas Abertas e a Associação Brasileira de Jornalismo INvestigativo (Abraji). Ainda assim, atendem muito mais os jornalistas do que propriamente à população.
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A sociedade nos confunde com o quarto poder, porque percebe que temos poder para isso. E muitas vezes temos mais poder do que os 3 Poderes Públicos.
Mas muitas vezes não temos poder nenhum. Vide os casos de censura prévia no Brasil
E na grande maioria das vezes, não merecemos o poder que temos. O tipo de jornalismo – se é que se pode chamar apuração por telefone, cópias de releases e preenchimento de aspas jornalismo – que se vê na grande maioria dos lugares hoje é nada mais que entretenimento, um des-serviço à sociedade.
Gostei do texto, mas por mais realista que seja, ainda acho idealista demais (e isso porque ainda estou no 3o ano de faculdade). E só pra não dizer que eu já perdi todo meu idealismo: talvez não seja uma má idéia deixarmos de representar nossos patrões e passarmos a representar a sociedade…
Fui eu a estudante =)
Bom, gostei da resposta! Sobre o assunto, defendo que antes de sermos jornalistas, somos cidadãos. Se a prodissão pode contribuir socialmente, que a usemos com esse fim! O que falta é a prática do civismo = devoção ao interesse público. O mínimo de patriotas que houverema já é bom. O mínimo de jornalistas patriotas que houverem, já mudarão algo em algum lugar. Que cada um cumpra seu papel e ajude da maneira que puder. Sempre haverão brechas, para açoes que somam, nessa sociedade individualista e capitalista.
Até!