Diário de um foca: Os ângulos expostos pelo vestido rosa
“O seu vestido de renda,
de colo mui devassado,
mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.”
Carlos Drummond de Andrade
Daniel Mello
Especial para o Manual dos Focas
São Paulo (SP) – Era impossível entrar na sala onde acontecia a coletiva. Os repórteres se espremiam em frente à porta e ao longo do corredor para tentar escutar ao menos algumas palavras de Geisy Arruda. O excesso de pessoas, câmeras e luzes somados à falta de ventilação faziam o escritório de advocacia lembrar um ônibus lotado sob o sol do meio dia.
A repercussão do caso podia ser sentida já na portaria do edifício. No elevador, a ascenssorista comentava em tom de desprezo o caso da estudante do vestido rosa. “Se queria aparecer, melhor era pendurar logo uma melancia no pescoço.” A faxineira concordou. Para ela, parecia totalmente absurdo tanta atenção por parte das mídias aos modos vulgares de uma garota qualquer.
Comentários semelhantes, porém mais contidos, podiam ser ouvidos até no corredor do escritório de advocacia. Até alguns jornalistas pareciam não entender muito bem o que exatamente estavam fazendo ali.
Quando começaram esvaziar a sala ao fim da coletiva, corri para uma colega conhecida para pegar ao menos o básico de informações. Em seguida, pressionei o advogado. Teria de haver uma outra entrevista. Apesar da superlotação da sala, muito da imprensa tinha ficado do lado de fora. Ele fez apenas sinal para que eu ficasse quieto, enquanto os coleguinhas saiam, para não dar a impressão de que alguém teria uma exclusiva.
Em poucos minutos, tive a chance de estar, junto com alguns outros repórteres, com a famosa Geisy. A Geni apedrejada pelos próprios colegas. A mesma que estava pendurada em todas as manchetes como uma vítima de agressão talibanica em pleno ocidente neoliberal do século XXI.
Algumas falas da garota já haviam evidentemente sido ensaiadas com seu advogado. Mas não houve artificialidade a ponto de comprometer a imagem geral da menina. Porque, via-se pelos modos, Geisy ainda tem um toque infantil. Difícil acreditar que seja a devassa corruptora dos bons costumes descrita na sua nota de expulsão da faculdade.
Talvez por inocência, achasse que não há tanto mal em ser desejada. Pensasse que os assovios lascivos eram uma forma de elogio, não um sinal de perigo iminente contra sua integridade.
Admirei-a pela coragem, de se expor tanto, mesmo quando até outras garotas parecem condená-la, como pude presenciar naquela mesma tarde. Em frente a Uniban, em São Bernanrdo do Campo, o protesto organizado por movimentos sociais contra a expulsão de Geisy era vaiado pelos alunos da instituição. Eles, assim como fez anteriormente a diretoria da Uniban, colocavam a culpa da agressão na menina.
Na mesma ocasião, Sabrina Sato desfilava com um vestido muito mais singelo na quantidade de pano do que aquele que deu origem a toda a confusão. Era cercada e filmada, mas sem xingamentos, sem agressão. Ou seja, a figura pública, a televisão pode. Mas quando trazemos esses valores disseminados em massa para as nossas vidas, cometemos pecado mortal.
Isso é uma questão de “postura” que está na nossa cultura, disse o vice-reitor da Uniban, Ellis Brown, no dia seguinte. Para ele, alguém pode até se fazer de ingênuo, porém, todos sabem qual é o limite. São regras não escritas, conhecidas e vigiadas por todos. Com pena de linchamento e achincalhe para os que as infringirem.
Não sei se Geisy, em sua aparente meninice, ignorou as regras por ingenuidade ou por malícia. Espero, entretanto, que ela ganhe logo seu lugar ao sol. Talvez um programa de televisão, próprio para exibir as roupas curtas e sua postura imoral. Porque toda vanguarda merece reconhecimento.
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Gente, eu gosto bastante do site, mas vocês têm que ter um pouco mais de atenção com os erros de português, sob pena de perderem credibilidade e leitores. Não é nada pessoal, mas é que gosto do site e melhor avisar que parar de ler. Segue abaixo.
Só neste texto: 1) "Era impossível entrar dentro". Entrar já é dentro. 2) "em frente a porta". "O excesso de pessoas, câmeras e luzes somados a falta de ventilação". À porta e à falta. Faltaram as crases. 3) "não um sinal de perigo eminente". Eminente = superior, que se eleva acima do que o rodeia. Aí cabe iminente = que ameaça se concretizar, que está a ponto de acontecer; próximo, imediato. 4) "mas sem chingamentos". o certo é xingamentos. Xingar é o verbo.
Nada que um revisor não resolva. Ou, em um dos casos, o corretor ortográfico do Word.
Posso acrescentar mais dois pontos?
5) "No elevador, o assenssorista…". Eiiita! O certo é ascensorista.
6) "Algumas falas da garota já havia evidentemente sido ensaiadas com seu advogado." Algumas falas já HAVIAM sido ensaiadas. O verbo 'haver' no caso é auxiliar, então deve ser flexionado (haviam sido ensaiadas = foram ensaiadas).
Vivendo e aprendendo, Daniel, então não se acanhe. O conteúdo do post está ótimo… atenção aos detalhes, descrições redondas, fatos bem encadeados. Gostei bastante!
Esse do haviam foi um erro de digitação que eu tinha até visto. Mas, sei lá porque, esqueci de corrigir.
Mas muito obrigado por ler com tanta atenção o que eu escrevo.
Luciana,
Muito obrigado pelas correções.
Vamos ver se agora ganho alguma credibilidade.