Catarina Barbosa
Da equipe Manual dos Focas
Belém - Era um dia de novembro em Belém do Pará – mês que timidamente anuncia o tempo mais intenso de chuvas característico da capital paraense. As estações do ano na cidade das mangueiras não passam por aquele belo processo de verão, inverno, outono e primavera. São reduzidas a duas: a que chove mais (inverno) e a que chove menos (verão). Apesar de ser novembro, o cenário da minha pauta tinha direito a sol escaldante com temperatura de 37° com sensação térmica de 38°, além de doses de suor excessivo causadas pela alta umidade relativa do ar.
A pauta era comunitária. Lançamento do Conjunto Residencial Liberdade II. Muitas famílias esperançosas em conquistar moradia digna. O evento estava marcado para começar às onze horas, mas como eu era da equipe do governo, cheguei por volta de dez para adiantar as entrevistas. Mas não adiantou muito, porque não tinha quase ninguém. Entrevistei apenas o engenheiro da obra e algumas pessoas do Fórum Social Mundial, que iam lançar o selo do evento na mesma ocasião.
Sempre que surge um fato novo em uma pauta, eu faço. O pior que eu já ouvi por agir assim foi: não te mandei fazer isso. E o melhor foi: “Parabéns”. Como no jornalismo elogios são raros, prefiro pecar por excesso que por falta.
Ao sair da redação, a recomendação da editora foi clara: “Faça uma matéria institucional falando sobre os benefícios que o residencial trará para a população”. Adiantei o que pude, mas o relógio marcava meio-dia, a governadora não tinha chegado e nem a população, e meu deadline estava apertado.
Quando os raios solares já tostavam meu braço e esquentavam demasiadamente a minha caneta, a governadora chegou e foi visitar as obras. Eu, claro, acompanhava os passos dela de perto, que nem papagaio de pirata. A essa altura, eu já estava lilás de fome e desidratada. Mas não tinha como, e nem devia arredar um passo sequer do lado dela. Depois de meia hora andando, ela foi para o palanque e começou a discursar.

A uma hora da tarde, a governadora ainda falava e do chão de terra batida voava poeira em todo mundo. Eu, assim como os outros jornalistas, estava impaciente e faminta. Nesse momento havia muitos personagens que poderiam ser entrevistados, mas além da insolação ter prejudicado meu raciocínio, eu precisava de um local longe do barulho para poder gravar a sonora. Eu não podia correr o risco de perder a sonora da governadora.
Quando, finalmente, ela terminou o discurso, os jornalistas saíram desesperadamente do sol e correram para entrevistá-la. Como eu era da equipe, tive prioridade: usei-a e depois, na tentativa desesperada de ir embora, corri em busca de um personagem para fechar a matéria.
Avistei um pouco à frente uma senhora grisalha, de meia idade, e perguntei: “A senhora pode conceder uma entrevista para a Pará Rádio?”. Ela fez sinal de “sim” com a cabeça. Agoniada, liguei o gravador, chamei-a para um local mais silencioso e perguntei: “Sra.fulana de tal, o que a senhora acha da iniciativa do governo do Estado de remanejar as famílias aqui do entorno para esse novo conjunto habitacional?”. Ela começou a fazer alguns sons estranhos, e de repente, veio um homem correndo na minha direção gritando: “Ela é muda! Ela é muda!”. Morrendo de vergonha, pensei: “Não acredito nisso!”. Então, com a maior cara de pau do mundo, virei pra ela e disse: “quando eu trabalhar na televisão entrevisto a senhora, obrigada”. Virei pro homem e perguntei: “Posso entrevistá-lo?”.
Saí do local com a entrevista pronta morrendo de rir e com três lições: Primeiro: Sempre tenha um conversa antes com o entrevistado. Além de ter passado vergonha, a senhora muda realmente queria conceder a entrevista, e ficou chateada porque eu a preteri. Segundo: Nunca vá para uma pauta sem chiclete, chocolate, barra de cereal ou garrafa de água. A falta de açúcar no sangue impede a gente de pensar com clareza. Terceiro: Sempre que puder faça mais do que lhe pedem. Apesar de não ter chovido naquele dia e de toda a tempestade que eu tive que enfrentar por causa da minha inexperiência, a calmaria veio quando a minha editora me elogiou tanto pela matéria do conjunto habitacional quanto pela do Fórum Social Mundial, que nem estava pautada.
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Estou adorando os posts do blog.
Imaginei a situação cômica e trágica…
Parabéns ao Manual dos focas e em especial a Catarina pq sei as dificuldades de externa em Belém e até então pensei que ter entrevistado um fanho pro impresso era d+, mas, ela me provou que entrevistar uma muda pra uma rádio é pior.