João Porto
Da equipe Manual dos Focas
Brasília – Na faculdade, nunca tive muitos problemas. Apesar de vir do interior, minhas raízes mineiras e goianas me ensinaram a ser um homem de fala fácil. E enrolar professores nunca foi problema. Arrumar estágio também foi tarefa simples. No primeiro mês de faculdade já estava empregado numa repartição pública.
O tempo passou e eu continuava muito confiante. No último semestre de faculdade me gabava com os colegas por já ganhar o piso da profissão, fato que me envergonho hoje em dia. Tinha dois estágios e, nos meses que antecederam a entrega da monografia, já contava com uma proposta de contratação.
Pelo menos era o que eu achava.
Com o diploma na mão fui contente informar ao meu antigo chefe que ele poderia me contratar como produtor. Tudo daria certo, e não teria problemas na tão temida transição faculdade/trabalho. Acontece que meu chefe não gostou tanto do meu diploma quanto eu imaginava, e me deu uma semana para arrumar emprego dizendo que não podia mais me manter na empresa.
Questão de custos.
Confesso que tive ódio, mas no fundo a provação foi importante para meu futuro. O excesso de confiança que esbanjava na faculdade de nada adiantava, afinal de contas agora era um profissional desempregado.
Numa sexta-feira, pedi demissão. Consegui um emprego que começaria na segunda, num programa de rádio terceirizado de um ministério, em Brasília. Pouco tempo depois fui cobrir as eleições para um jornal de grande circulação local, apenas em período de férias.
Três curtos meses se passaram e a licitação da rádio foi para o espaço. E meu frila no jornal também. Fiquei sem emprego no dia do meu aniversário e resolvi tirar férias, como meu comparsa Victor. Antes disso, visitei um antigo trabalho e adiantei a todos que estava na sarjeta.
Solidários, meus colegas me perguntaram se tinha aptidões para cobrir esportes numa TV local. Lembro-me muito bem o que falei naquele dia. “Do jeito que estou, cubro até fofoca.” Não sou do tipo galã de vídeo, mas encarei o desafio.
Fiz o teste e não fui brilhante. Mesmo assim, fui para os braços da vovó comer pão de queijo e saborear as deliciosas cachaças mineiras. De volta à cidade grande, liguei para a TV e descobri que podia começar na segunda-feira.
Felicidade total. Ser repórter de TV não estava nos meus planos, mas eu não poderia perder essa oportunidade. Passei para frente das câmeras e gaguejei muito até me adaptar ao vídeo.
Quando achava que estava tudo bem me veio a infeliz notícia: “Você não está pronto para o vídeo, e não queremos mais seus trabalhos aqui na emissora”, disse o editor.
Para um roceiro autoconfiante, a notícia da demissão entrou como um punhal no meu peito. Ser demitido no meu primeiro emprego de grande expressão não é a melhor forma de se começar a carreira. Tentei buscar forças no meu CD do Nelson Cavaquinho, mas não deu muito certo. Precisei de algumas garrafas de whisky para me estabilizar. A dor do desemprego finalmente bateu à minha porta. Vivi um mês de tédio absoluto e muitos posts nada criativos no Manual dos Focas.
Após várias ligações, consegui um novo trabalho em um pequeno jornal impresso da cidade. Hoje continuo cobrindo esportes e confesso que me apaixonei pela área, apesar de sonhar intensamente com o dia que voltarei a cobrir os bastidores da política nacional.
Aprendi durante o calvário que minha prepotência nos tempos de faculdade de nada adiantou, e que só o esforço pode tirar você do desemprego.
Hoje sou um cara mais cético. Sei que falta muito para eu ser um bom profissional, e que nada nesta vida a gente conquista com facilidade.
O bom jornalista é aquele que mata (pelo menos) um leão por dia. Para se garantir na redação, é preciso sempre melhorar. Nunca se deve pensar que está no topo ou que tudo não passa de mais do mesmo. A sobrevivência no mercado depende muito da capacidade de se reinventar e aceitar criticas.
Como repórter, acredito que cada dia acaba sendo diferente do outro, e que tudo pode mudar no próximo segundo. Manter este espírito vivo é importantíssimo para se transformar num bom profissional.
A coluna Me Formei. E agora? é publicada todas as quintas-feiras. A participação do leitor é fundamental para dar continuidade a este projeto. Se você também tem vontade de contar como transcorreu sua transformação de estagiário para profissional, mande um texto para contato@manualdosfocas.com contando a sua história.
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Lindo João!
Adorei o texto!
E a história do leão é verdade… Ah se é…
Ficou muito bom o seu texto!
Fenomenal!
Bom, João. Coleguinhas solidários? Adonde!?!? rs Acho que o meio, de fato, é um querendo puxar o tapete do outro. Digo, porque tenho colegas (desde a facul) que se puderem tomam o teu lugar, mentem, etc. Então, não confio. No máximo, um ou outro. Mas, a maioiria é querendo algo em troca ou por puro interesse mesmo. Assim, como não tenho a oferecer acabo só. Ser boazinha não rende para o mundim jornalístico.
E, bem real sua posição qto as demissões. Gostaria que esta coluna e/ou blog no todo abordasse mais o assunto. Afinal, para alguns parece fim de carreira. Ou tipo: "não dei certo", "não nasci para isso", "to fora ou to queimado". Dá para por isso no currículo, dizer numa futura seleção?rs
Continuando …
Já da sua confiança, super autoestima. Acho que muitos coleguinhas o são. Tipo, quem não for tá mesmo fora da área. Eu não sou, tento, mas não sou. Mas, os que vejo melhor por aí se acham sim os melhores. Apesar dos erros, dos medos que tanto escondem. Eu já tenho plena consciência de minhas limitações, que são inúmeras. Sei que sou mortal, normal ….rs
E, dos dias … Que bom que possam ser diferentes. Senão seria mesmo uma chatice!
Esse texto trata muito bem da nossa realidade,principalmente daqueles que são recém formados.No começo nada é fácil mas com muita dedicação acredito que qualquer bom profissional não fica fora do mercado por muito tempo.
O mundo pode ser bem mais cruel dependendo do ponto de vista.
No meu caso, posso afirmar com tranquilidade que consegui encontrar um grupo de pessoas incríveis na faculdade. Gente que tem talento e nunca precisou pisar em ninguém para abrir espaço no mercado. Alguns escrevem neste blog, outros são grandes amigos que sempre quando posso aproveito para conversar.
Jornalismo, acima de tudo, é um trabalho que não se faz sozinho. Seu texto precisa passar pela mão de várias pessoas até chegar na página do jornal, um release precisa ser aprovado por alguém para ser enviado, uma matéria de TV nunca ficará boa se o cinegrafista não for com sua cara.
Vivemos em grupo, sei que existem os filhos da puta, mas ainda assim precisamos uns dos outros para sobreviver nesta profissão.
Aproveitando seu outro comentário, vou tentar escrever mais sobre as reviravoltas do mercado e como se recuperar, após uma demissão.
Estou vivendo justamente a crise da transição faculdade/mercado de trabalho. Está difícil de segurar a onda, aqui em SC para arranjar um estágio remunerado durante a faculdade é quase como ganhar na loteria. Emprego que pague o piso(pouco mais de mil reais) então… É um verdadeiro milagre!
A impressão que o estudante de jornalismo tem é de que além de pagar caro para estudar, ele também precisa pagar para trabalhar -no dito estágio voluntário.
Autoconfiança (como era o teu caso) é o que menos se tem agora. Talento, por aqui, não significa nada se você não tiver um QI pra te indicar na ocupação de uma boa vaga.
A gente continua a faculdade por amor mesmo, por que as expectativas de trabalho são desastrosas.
João réio, adorei!!
Me lembro muito bem das suas maratonas pelos estágios da vida,rsrs.
…e como diz a tia Cléo: “o sucesso só depende de sua coragem”.
E isso sei que tens de sobra.
Torço mt por você!
Bjos
Imagina! Estou no segundo semestre já pensando o quão fracassada e frustrada será minha vida pós-faculdade em Brasília. Talvez sua confiança tenha sido algo bom, afinal.
só que ainda não cheguei na parte do final feliz!
Mas não matamos apenas um leão mas um zoologico inteiro..
para conseguirmos um lugar ao sol!!
Mas faz parte do nosso crescimento pessoal e profissional!
Esse texto veio como uma luva em minha mão. Sou recém formada e aconteceu quase o mesmo comigo. Nos tempos de faculdade também achava que ia me dar muito bem, todas as entrevistas de estágio que fiz sempre tinha um sim como resposta. Antes de me formar estava ganhando pouco menos que o piso da profissão (aqui em Brasília), e pensava mesmo que seria uma produtora foda. Me enganei! Há 2 meses o dono da produtora onde eu trabalhava me disse que não teria como me manter por questões financeiras. Desde então estou envolvida nesse mundo de desemprego que tanto escrevia em meus artigos e matérias durante os tempos da faculdade. Bem, exatamente agora estou indo agora buscar meu diploma. Tenho a esperança que venha algo, o mais breve possível. Tenho realmente força pra matar um, talvez dois, mas não mais que três leões por dia. Enquanto isso sigo verificando todos os sites de comunicação a procura de uma oportunidade.
Sorte a todos.
E que o mercado não nos engula. Amém