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Cinco Perguntas a Renato Alves, jornalista que perdeu peso, adoeceu e dormiu no concreto no Haiti

Postado por deco on February 2, 2010 – 17:479 Comments

renatoDeco Bancillon
Da equipe Manual dos Focas

 Brasília – Imagine ser mandado para um lugar onde falta tudo, de água à esperança. Uma terra de desafios diversos, onde o difícil em si não é colher boas histórias, mas se manter vivo. Assim o fez Renato Alves, 35 anos, jornalista que dormiu no concreto, perdeu peso e ficou doente ao respirar o mau cheiro de corpos espalhados pelas ruas e a interminável poeira de escombros que ainda hoje encobre a capital do Haiti, Porto Príncipe. A cidade acabou varrida do mapa em 12 de janeiro, devido a um terremoto que destruiu o pouco que ainda restava de civilidade em um país calejado por furacões e por embargos econômicos. Ao Cinco Perguntas, o repórter do Correio Braziliense contou como foi ter vivido essa experiência. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Manual dos Focas

Um pouco sobre Renato Alves 

Mineiro de Sete Lagoas, 35 anos, formado em jornalismo pela PUC-MG. Tem 11 anos de profissão, sendo 9 no Correio Braziliense, onde sempre trabalhou como repórter do caderno de Cidades, mas já publicou matérias em todas as editorias do jornal. Assina uma coluna no Aqui-DF desde o primeiro número do diário. Participou da cobertura de alguns dos casos de grande repercussão no Brasil nos anos 2000, como o caso Pedrinho, a Chacina de Unaí e todos os grandes acidentes aéreos ocorridos no país. 

Cinco perguntas… 

1) Como foi estar no epicentro do caos no Haiti, num momento em que o mundo inteiro voltava os olhos para aquele país? 

Foi a maior experiência pessoal e profissional, minha e da maioria dos jornalistas que lá estiveram. Afinal, trata-se da maior tragédia da humanidade, segundo a ONU. Foram sete intensos dias no Haiti. Nunca trabalhei, sofri e chorei tanto. Deixei o Haiti, mas o Haiti me acompanhará pelo resto da minha vida. 

2) Em algum momento sentiu-se em risco ao desembarcar em um país em que o número de presidiários à solta era maior que o de policiais prontos para reestabelecer a paz? 

O risco era iminente e permanente. Antes de tudo, havia o risco de morrer em meio ao concreto, pois havia uma média de nove tremores por dia, réplicas do grande terremoto do dia 12. Alguns fortes o suficiente para por abaixo o que restava das frágeis construções em ruínas. Andei em escombros, dormi sob concreto. Também havia o risco de assalto, de assassinato. Haitianos sabiam que tínhamos alguma água e comida. Por fim, havia o risco de contrair uma doença grave. A poeira contaminada está por toda parte. Fiquei doente, com a garganta inflamada. Fui atendido por uma médica militar. Felizmente, não evoluiu para algo pior. 

3) Soube que pouco tempo depois de chegar a Porto Príncipe ocorreram novos tremores de proporções médias, algo que sismólogos já haviam previsto. Você temeu em algum momento que pudesse ocorrer uma nova catástrofe de proporções ainda maiores?  

Os tremores eram frequentes e havia o risco de uma tragédia maior. O medo também era permanente. Afinal, ao contrário da maioria dos colegas brasileiros, não dormi todos os dias na base militar brasileira, onde as construções não são de concreto e há médicos e enfermeiros. Não havia lugar para todos. Só consegui meu lugar lá no quarto dia de Haiti. 

4) Além do idioma, uma vez que muitos haitianos falam apenas o Crioule, quais foram as dificuldades em cobrir uma história como essa?

A insegurança, a instabilidade, a falta de organização, a falta de comunicação, a falta de mobilidade. Era o caos. Pior que uma guerra, onde há uma hierarquia, uma certa ordem, hospitais, bases militares, onde você sabe onde as coisas estão. No Haiti não há governo, não há mais prédio do Estado em pé. Não há embaixada brasileira, sede da ONU, alguém que fale pelo país, pelas equipes de ajuda humanitária. Qualquer um fecha as ruas, a qualquer hora. E as ruas são estreitas. A maioria têm escombros por todos os lados. Os desabrigados vagam pelo asfalto e também ocupam o que havia de área pública, jardins.  Nesse cenário, não há como planejar uma pauta. A estratégia – minha e da maioria – era andar um pouco, escolher um lugar, parar e contar a história dali, daquelas pessoas. E história é o que sobra naquele lugar. 

5) Você foi o único repórter do Correio, além de um fotógrafo, mandado para o Haiti. Sente que a decisão de terem te mandado incomodou a muita gente? 

Não pedi para ir, fui escalado. Fui acordado numa manhã de domingo sendo comunicado que embarcaria à tarde para o Haiti. Não fui mandado para um cruzeiro no Caribe. Fui para uma guerra, sem saber onde ficaria, se teria segurança, se comeria, se teria água, quando e como voltaria. Adoeci, voltei cinco quilos mais magro, voltei triste, arrasado emocionalmente. Não sei se vou me recuperar de tudo. Mas valeu a pena. Talvez seja a viagem da minha vida, a pauta da minha vida. Qualquer repórter de verdade gostaria de fazê-la. Agora, se houve ciúme, inveja, se acharam ruim, isso não chegou ao meu conhecimento. E, se ocorreu, não me incomodo. Tinha muito mais com o que me preocupar lá no Haiti. Tenho muito mais com o que preocupar agora. A catástrofe haitiana é muito maior que o meu nome, que o nome de qualquer um.

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9 Comments »

  • Catarina Barbosa says:

    Dizer parabéns pela sua experiência pode ser cruel. Mas parabéns pela coragem, porque manter o foco jornalístico em meio à devastação de um país deve ser muito difícil! Parabéns ao Deco pela escolha do jornalista.
    Lindo depoimento.

  • Daniel Mello says:

    Legal a entrevista.
    Só acho que poderia ter se perguntado sobre a espetacularização da cobertura do Haiti. Tema abordado em texto anterior.
    Porque muitas vezes criticamos a cobertura jornalística, mas nem sempre temos uma visão de alguém de dentro para contrapor.
    Em outros momentos, estamos dentro, vemos que não estamos fazendo o ideal, mas não conseguimos achar maneiras de contornar.
    Então eu perguntaria para o Renato: Dá para cobrir uma tragédia como a do Haiti sem ser sensacionalista?
    Será que o repórter se preocupou com isso, ou estava tão absorvido pela situação que não tinha como formular esse tipo de questão?

  • Vou te responder o que o Renato me disse quano perguntei pra ele sobre a questão do furo jornalístico, da cobrança de ter sempre um material melhor que o do concorrente (algo que muitas vezes leva ao pieguismo, ao sensacionalismo).

    Segundo ele, mais importante do que a matéria em si, o ideal era manter-se vivo. E inteiro. Procurar ser sobreviventes todos os dias. O que conseguia se produzir de material jornalístico nesse contexto era lucro.

    Agora a minha avaliação sobre o que ele disse e sobre a sua pergunta. Acho que o sensacionalismo é imbuído à história que cobrimos. É impossível não se chocar, se assustar, se comover com uma história dessas. Eu não conseguiria. E tampouco é de se esperar que o jornalista consiga relatar todos os fatos com parcimônia estando onde esteve, vendo o que viu.

  • Deco Bancillon says:

    CONTINUAÇÃO…

    Certa vez fiz matéria que acabou sendo vista como sensacionalista. Mas vejam bem a história: um rapaz, que havia sido condenado por homicídio, estava em liberdade provisória, tendo que se apresentar, todos os dias, para serviços comunitários. Um dia, ao chegar mais uma vez em casa, foi repreendido pela mãe, que o alertou para o compromisso do dia seguinte. Ele a esfaqueou pelas costas, enquanto ela tentava fugir para a rua. Uma irmã, que dormia durante a confusão, pegou uma faca e agredediu o irmão. Ele revidou e a esfaqueou também. Depois, decidiu tocar fogo na casa, dizendo que queria matar todo mundo da família. Pense bem, Daniel, é possível contar uma história dessas, sem excluir os detalhes da tragédia, sem ser provocar alguma comoção? Se tem, não conheço. Porque até hoje, passados mais de três anos, me lembro do caso. Como, então, não se comover com a história?

  • É por esse tipo de coisa que fiz jornalismo e muitos dos que conheço também. Para sentir a dor do mundo na pele e sobreviver para contar aos outros que o céu não é tão azul como pensam.

  • Social comments and analytics for this post…

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  • Gabi de Almeida says:

    Deco, achei ótima a entrevista. Via o Renato como um jornalista vaidoso, mas agora confesso que o vejo com outros olhos.
    Muito bacana mesmo todo esse relato.
    Assim como Victor, é por esse tipo de situação que escolhi essa profissão! Parabéns!!

  • Renato Alves says:

    Pessoal, só hoje li a entrevista porque só hoje voltei ao mundo normal, ao trabalho. Estava de quarentena, me tratando.
    Daniel, se teve a oportunidade de ler as minhas matérias, creio que não verá pieguismo ou sensacionalismo nelas. Tentei dar outra abordagem, dar voz e rosto às vítimas da tragédia. Sim, grande parte da imprensa mostrou só o horror. Mas como não agir assim perante a maior tragédia da humanidade?
    Gabi, não te conheço. Mas, se você me conhecesse, teria certeza que de vaidoso, estrela, nada tenho. Nunca tive. Chato, até eu eu me acho.

  • Paulo de Araújo says:

    Conheço Renato Alves a mais de 10 anos, na época ele era assessor de imprensa da Companhia de Transportes de Brasilia, depois nos tornamos colegas no CB , e já dividimos inúmeras pautas, vaidade se tem, acho que é pela qualidade do texto, pelo vigor da pauta, pela credibilidade passada para o leitor, tenho orgulho de conviver com este MINEIRO , de Sete Lagoas.
    Colega e amigo pelo qual sinto respeito e admiração.

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