Da equipe Manual dos Focas
São Paulo - Em um país que a cada dia ganha mais massa crítica é desolador observar a carência do ombudsman nos veículos de comunicação. Ombudsman é o delegado dos leitores, telespectadores e ouvintes, é aquele que, teoricamente, representa “o povo brasileiro”. Pelo menos está no cerne de sua criação, na Suécia de 1973, quando foi necessário designar a um profissional a função de fiscalizar os coletores de impostos, juízes e outros funcionários, segundo Ana Cláudia Allet Aguiar, na obra O Ombudsman e a Realidade Brasileira.

Mas se esse profissional representa a população, por qual motivo ele não está presente nas redações desse país? O jornalista Alec Duarte, em seu blog Webmanario, destaca uma hipótese, baseado em uma análise internacional: a Web 2.0. Aliás, foi a própria Web 2.0 que poderia ter feito com que o The Courier-Journal, o primeiro jornal a criar o posto na América do Norte, extinguisse esse profissional. Se os leitores colaboram e agora têm contato direto com os jornalistas, por qual motivo o ombudsman seria necessário? É o que provavelmente pensam esses impérios da mídia.
Alec vai mais longe. Ele afirma que o cargo é normalmente ocupado por um jornalista respeitável e veterano (figura cada vez mais rara), e a sua contratação – “aparentemente desnecessária” – encarece os dispêndios do veículo de comunicação.
Poucos jornais impressos brasileiros possuem o profissional veterano, dois deles são a Folha de S.Paulo e O Povo. Contudo, a presença desse profissional não é satisfação garantida aos leitores. Em seu artigo no Observatório da Imprensa, o jornalista Urariano Mota se queixa de uma resposta insatisfatória por parte do ombudsman da Folha. “[O ombudsman] poderia ser substituído por uma caixa online, que a cada reclamação respondesse automático: ‘caro senhor, muito obrigado, senhor, atenciosamente”.
O outro lado da moeda, penso eu, é a rica experiência de ler o relato de um profissional como esse. Ele não só atende e analisa as sugestões e reclamações, podendo melhorar o seu veículo de comunicação, como compartilha sua bagagem conosco. Em um jornalismo que está cada vez mais “faz agora que o tempo é curto, depois eu te explico”, profissionais como esses são essenciais.
Aos 56 anos, Carlos Eduardo Lins da Silva, nono profissional a ocupar o cargo de ombudsman na Folha (primeiro jornal a adotar tal função no Brasil, em 1989), faz todos os domingos uma análise crítica do seu jornal. Além disso, nunca deixa de citar referências como livros e filmes para complementar o aprendizado. Ele faz o debate tão necessário e ausente nas rodinhas de comunicação. Um debate que – perdoem-me o exagero – tem se restringido apenas a obrigatoriedade ou não do diploma.
A Web 2.0 pode mesmo substituir o ombudsman? O leitor-cidadão pode substituir o jornalista? Não acredito nisso. O colaborativismo, como o próprio nome já diz, chegou para auxiliar e não para fazer o papel que cabe à imprensa tradicional.
Conheça alguns ombudsman
Carlos Eduardo Lins da Silva – Folha de S.Paulo
Ernesto Rodrigues – TV Cultura
Paulo Rogério – O Povo
Mara Gama – UOL
Clark Hoyt – The New York Times
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