Os apocalípticos são o capitão Nascimento do jornalismo

Victor Martins
Da equipe Manual dos Focas
Brasília – A universidade, às vezes, parece uma arena de combate. De um lado os apocalípticos do jornalismo, do outro, os românticos. Em meio aos conflitos e debates, as cabeças dos estudantes são disputadas por ambas as vertentes. A situação não é ruim, argumentos vastos e pensamentos distintos, quando não assustam o aspirante a jornalista, colaboram democraticamente para que uma opinião sólida seja formada. A questão é que até a entrada do foca na redação, as dores e dificuldades do “ralar” jornalístico são quimeras, flutuam no mundo das idéias e os apocalípticos acabam por mistificar e romantizar ainda mais a profissão.
Dor e obstáculos fazem parte da jornada do herói e, quem não se sente atraído por uma trajetória de aventuras e uma rotina instável? Todos querem ser heróis, ou pelo menos parte das pessoas. Todos querem deixar seu legado ao mundo (Mais uma vez não esqueçam de relativizar o “todos”). Nessas condições, o jornalismo parece adequado, para milhares de estudantes, como ferramenta para deixar um rastro nesse mundo efêmero e de memória curta. Tanto é assim, que recordo o meu tempo de universitário e de alguns diálogos com colegas que escolheram a profissão porque queriam ser atores. Também fiquei chocado, como imagino que alguns leitores ficaram ao passar os olhos na última frase, quando ouvi esse disparate de bocas universitárias.
Muita gente faz jornalismo para ser famoso. Nesses casos eu sempre penso: “Graças a deus inventaram o Big Brother”. Em seguida a essa idéia me irrito comigo mesmo e lembro de um monte de jornalistas e os ainda estudantes que também participam do reality show e vêem o curso como um degrau para o sub-celebrismo. Pessoas essas que servem de pilar para os que argumentam que não é necessário estudar para fazer jornal.
Neste contexto, só consigo imaginar que os apocalípticos não existem única e exclusivamente como contraponto aos românticos mas, e talvez muito mais por isso, como um capitão Nascimento para os aspirantes a sub-celebridade — uma espécie de peneira para tentar qualificar melhor. O embate entre os apocalípticos e os românticos mostram que jornalismo diário tem suas glórias e compensações, mas carrega mais dores, trabalho, suor e dedicação do que prêmios. Aquele ditado chato de matar um leão todo dia é verdade. Mas, aquele outro ditado, de que reportagem é uma cachaça, também. Para quem realmente gosta, apesar das mazelas, fazer jornal é muito bom. E, de certo, não existe espaço para atores (talvez em um ou outro programa de TV), acomodados e pseudo-celebridades preguiçosas.
O jornalismo deve ser indissociável do interesse público e da responsabilidade social, como ensina Eugênio Bucci em muitos de seus textos e artigos acadêmicos ou não. Parafraseando ele, sem usar as mesmas palavras, em seu artigo publicado no livro Políticas Públicas Sociais e os Desafios para o Jornalismo: a imprensa não pode abraçar outra coisa senão o interesse público e a responsabilidade social. Em caso contrário, há algo estranhamente errado. Por isso, jornalismo não é degrau para a fama.
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