Saturday July 31st 2010

A mulher, Neguinho e o carnaval

Lali Mariáh, escreveu o texto abaixo para o nosso especial de Carnaval. Como o especial não aconteceu direito e hoje é dia da mulher, aproveitamos o momento porpício para publicar como a mulher fica presente no imaginário masculino.

Lali Mariáh
Da equipe Manual dos Focas

Carnaval é a época do ano pela qual os compositores de hits instantâneos contam os dias. A festa é a oportunidade de lançar refrões pegajosos para marcar o ano dos foliões. Marchinhas e sambas tradicionais nem sempre mantém seu espaço em meio aos confetes e serpentinas.

Quem é que ao escutar cinco singelos segundos do intitulado “rebolation” não passa o dia sofrendo para apagar o eco da memória? Está aí a prova do sucesso do grupo Parangolé, da Bahia. A banda que, até o momento, tem gravados dois cd`s que possuem o mesmo nome: Dinastia Parangoleira. Acontece que o primeiro cd, do ano de 2007, é gravado em estúdio e o álbum lançado um ano depois é ao vivo. Tem-se aí uma noção da capacidade de produção parangoleira.

Acontece que em 2010, um renomado sambista e puxador de samba-enredo resolveu inovar. Após 32 anos de carreira, Luiz Antônio Feliciano Marcondes, reconhecido como Neguinho da Beija-Flor, lançou no reality show Big Brother Brasil sua pérola musical. A música “Mulher, Mulher, Mulher (Ideia Fixa)” consegue reunir em dois minutos e quarenta e sete segundos o resumo do que se vê no carnaval: mulheres.

Há de se concordar que a televisão se resume a isso no carnaval. Closes na avenida expõem mulheres seminuas e suas proporções avantajadas. Em Salvador os câmeras buscam as moças mais bonitas para estampar nas telas. Como mulher, digo com convicção que homens não fazem parte da escolha das transmissões do carnaval.

Neguinho da Beija-Flor repete 45 vezes a palavra mulher separando-a somente por vírgulas. Já em outras 56 vezes ele a compara com o que há de melhor, ela própria. Não existe plural, não existe conexão, não existe poesia. Para Neguinho só existe mulher e ponto final.

Há de se questionar somente o motivo que levou tão conhecido intérprete a cometer tamanho tropeço musical. Poderia enumerar trocentos motivos imaginários para isso, mas depois deste carnaval eu compreendi o raciocínio.
Passei quatro dias do carnaval em uma cidade de praia, no estado do Pará, de nome Salinópolis, mais conhecida como Salinas, ou para os íntimos Sal. Fui acompanhada de meu namorado e mais dois amigos dele. Solteiros e a procura essa dupla não poupou a palavra mulher de seus diálogos. Dia ou noite, bêbados ou sóbrios o interesse era somente mulher. Em um determinado momento fiz do mp4 o meu melhor amigo e só larguei dele quando não existia mais bateria e ao retirar o fone dos meus ouvidos a primeira palavra que ouvi foi mulher.

Depois dessa experiência concluí que não é questionável a composição de Neguinho da Beija-Flor. Não há motivos para tentar compreender o que leva um artista a cometer tal falha no repertório. Simplesmente, em um determinado momento, não há nada mais na mente de um homem do que a mulher. Cada carnaval que passa, cada música criada para ele e cada cobertura televisiva ilustram a verdade, não há o que questionar.

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