Larissa Brainer
Da equipe Manual dos Focas
A campanha para as eleições municipais tinha começado há quase um mês. Tempo esse que era o mesmo que eu tinha na editoria de Política de um jornal diário, como repórter-estagiária. Em Pernambuco inteiro, candidatos da base aliada, majoritários (prefeitos) ou proporcionais (vereadores), brigavam (em alguns casos foram além da força de expressão) pelo direito de usar a imagem do então – e atual – governador do estado, Eduardo Campos.
Campos é do PSB, e já naquele período, meados de 2008, tinha ótima avaliação. Além disso, tem grande apelo político por, entre outros motivos, ser neto de Miguel Arraes. Ou seja: todos queriam “um pedacinho” do Góve – apelido do governador nas rodinhas de jornalistas do estado – em seus santinhos, outdoors e segundos na televisão.
Única repórter da equipe que trabalhava pela manhã, essa que vos fala podia cobrir desde uma entrevista meia-boca na rádio que faz parte do sistema de comunicação onde trabalhava a qualquer fato importante do horário. Nesse dia, calhou de ter um evento grande, relacionado à área de segurança pública. Muita gente, muitos repórteres, muitos papagaios de pirata, e, como não poderia deixar de ser, o Góve estava lá.
A cobertura do evento não era minha. Meu editor me despachou para lá com outros objetivos: cutucar o Góve para ele falar de política, repercutir histórias que estavam rolando nos bastidores e também, questionar sobre as brigas pela imagem, assunto que vinha rendendo muito.
Eduardo Campos estava um tanto quanto sem paciência no dia e a nuvem de jornalistas – inclusive das sucursais – o cercou logo na chegada. Sem diminuir o passo, ele respondia a algumas perguntas e ignorava (ou não ouvia) outras. Na corrida pela matéria, driblei uns coleguinhas, e consegui chegar mais perto do Góve e tascar a pergunta “E a imagem, governador, libera ou não?”. Ele continuou andando e já se afastando, falou com a testa franzida: “Libera, libera. Para acabar logo com essa confusão”.
Bastava para mim. Tinha conseguido o que eu queria. Voltei para redação e depois de falar com o editor, começou a longa tarefa da repercussão. No dia seguinte, “Eduardo Campos libera imagem para aliados” estava na capa do jornal.
Em política, muitas vezes, uma frase, uma careta, uma respostinha atravessada, pode virar manchete. Para isso, a gente tem que explicar o contexto do que foi dito/feito e acionar todos os possíveis envolvidos. As falas e as reações dessas pessoas é que vão fiar o tecido da matéria juntas. Afinal, uma frase pode até dar manchete, mas ela sozinha não faz um texto.
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Gostei do post, só não da “entrevista meia-boca” da rádio, que, suponho, sei bem qual é
Entenda-se por “entrevista meia-boca” uma conversa que não rendeu nada. =P