Saturday July 31st 2010

Entrevista – Emmanuel Pinheiro, fotógrafo demitido por expressar opinião em blog

Alexandra Martins
Da equipe Manual dos Focas

Em entrevista exclusiva ao site Manual dos Focas, o repórter fotográfico Emmanuel Pinheiro, comenta a demissão do jornal Estado de Minas por expressar opinião em seu blog, mercado de trabalhos e novos rumos pro fotojornalismo.


Esta conversa poderia muito bem ter acontecido numa mesa de bar. Mas devido a distância Brasília/Minas Gerais, o bate papo acabou acontecendo pelo MSN, mas sem perder a espontaneidade.

O repórter fotográfico Emmanuel Pinheiro tem longa estrada no fotojornalismo. Dos 36 anos de idade, 12 foram gastos na profissão. É formado em Jornalismo pelo PUC-MG. Trabalhou no Jornal O Tempo de Belo Horizonte; colaborou para revistas como Veja, Época, Istoé, Caras, Istoé Gente, Viver Bem e revista Exame. Foi colaborador do Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, O Lance, jornal Valor Econômico, O Globo.

Trabalhou durante sete anos no jornal Estado de Minas e neste ano foi demitido do impresso por expressar opinião em seu blog. “Fiz criticas positivas e negativas. Escrevi minhas impressões sobre várias coisas, é um espaço meu. A liberdade de expressão está acima de tudo”, confessa o fotógrafo nessa entrevista exclusiva pra o Manual dos Focas.

O repórter fotográfico ainda comenta as conseqüências da revolução tecnológica, o aparecimento do jornalismo multimídia e garante: o fotojornalismo está passando por grandes mudanças.

Alexandra Martins diz:

Estava pensando hoje de manhã, antes de começar essa conversa, que já faz exatamente uma semana que pedi meu registro de fotojornalismo aqui em Brasília. Ao mesmo tempo que quero esse documento para crescer profissionalmente, sinto uma certa crise no mercado de fotojornalismo e me pergunto o quanto que tudo isso vale a pena. E como você tem uma certa bagagem nessa profissão, queria saber qual a diferença enxerga no fotojornalismo de hoje com o de antigamente?

Emmanuel Pinheiro diz:
Olha Alexandra, eu não vejo uma crise no fotojornalismo. Não podemos generalizar. Hoje, os jornais são cada vez mais ágeis, com a internet o processo de produção fotográfica ficou ainda mais rápido. Isso por um lado faz com que as empresas de comunicação tenham uma oferta muito grande de imagens e publicam fotos feitas por diversas pessoas, com celulares, câmeras semi-profissionais etc.

O custo baixo disso é conveniente pro jornal que teme o registro do fato, mas por outro lado, temos que pensar que TODAS as empresas têm isso, acontece com todas. E como sair disso para se ter um jornal com boas fotos? Tem que se ter profissionais com experiência, que saibam fazer o dia a dia, informando com agilidade e plasticidade nas fotos. O fotojornalismo está passando por uma mudança.

Vejo que as empresas estão procurando imagens “revistadas” para atrair o leitor, para ser o diferencial. Fotos revistadas são fotos mais elaboradas, produzidas, mas não montadas ou inventadas. Acredito que em grandes empresas, grandes jornais o fotojornalismo está crescendo pois estamos na era das imagens. Não vejo crise, mas sim um pouco de falta de conhecimento e visão de alguns editores de fotografia de jornais medianos.

Alexandra Martins diz:
Seriam imagens mais trabalhadas e muito menos um mero registro do fato?

Emmanuel Pinheiro diz:
Sim, as imagens não podem só ser um registro. Elas têm que mostrar plasticidade, com uma luz diferente com um enquadramento diferente. O leitor vai à banca de jornal e compra o jornal pela imagem que lhe chama a atenção.

O jornalismo de registro, de protesto, dos anos de chumbo, que era maravilhoso, magnífico, não se sustenta hoje, pois precisamos produzir belas imagens e estampá-las na capa dos jornais para atrair leitores. O próprio design de jornais mudou. Veja o espaço dedicado as imagens hoje e como era a 30 anos atrás.

Alexandra Martins diz:
Num dos post para o blog Manual dos Focas, cheguei a escrever um texto sobre a importância das imagens na atualidade. E muitos pesquisadores afirmam que o futuro do jornalismo impresso será ficar cada vez mais parecido com a revista, com imagens trabalhadas e a utilização de infográficos.

Emmanuel Pinheiro diz:
Sim, é isso mesmo, imagens+ infográficos, texto curto e páginas mais limpas. A idéia é fazer um jornal de domingo a cada dia. Você me entende?

Alexandra Martins diz:
Entendo e o próprio fato de grandes jornais darem a importância de mudarem seu layout de tempos em tempos já mostra que está se criando um outro perfil dentro das empresas. A Folha de S.Paulo mesmo vai mudar a sua cara novamente. A última vez que isso aconteceu foi… não sei, mas vou chutar porque ainda estava na faculdade, há uns 3 anos atrás

Emmanuel Pinheiro diz:
Sim, é a percepção de que o leitor está com menos tempo pra ler grandes textos e quer ter mais imagens trabalhadas nas páginas.

Alexandra Martins diz:
Então pode-se afirmar que toda essa revolução digital vai ser boa pro fotojornalismo? As vezes me encontro com alguns profissionais que estão há mais tempo na área e todos, parece que a fala é uníssona, estão muito desacreditados com o mercado por causa dessa revolução tecnológica. Muitos tiveram amigos que trabalharam anos na redação onde foram demitidos porque o custo para manter o “pessoal da foto” era muito caro.

Emmanuel Pinheiro diz:
Alexandra, com a produção em massa de máquinas digitais à preços módicos, celulares com fotografia, qualquer pessoa pode e é um fotógrafo em potencial. Não sou contra isso, deixo isso bem claro.

Com a grande oferta de agências internacionais e nacionais, os jornais estão abarrotados de imagens. Mas a produção de um jornal diante de tantas imagens oferecidas dia a dia, faz com que a fotografia e o fotojornalismo praticado na empresa mude.

Ficam aqueles que produzem bem, os que fazem registros não encontram mercado nesses tempos. Muito se fala em cortes na fotografia, isso existe sim. Acredito ser por uma saturação de mercado em que os novos profissionais vêem com força total: olhar de revista, sabendo tudo de tecnologia e etc. E os outros profissionais ainda resistem a isso e por isso acabam esquecidos na editoria.

Mas há um porém muito interessante. Não vejo essa troca de postos nas editorias de fotografia dos grandes jornais. Em Brasília, por exemplo, as equipes do Globo, Estadão e Folha são praticamente a mesma há anos. Tente entrar neste mercado pra você ver, é quase impossível. E aí eu te pergunto, por que isso? Porque essas empresas acreditam na experiência dos profissionais, na capacidade deles de saber qual é a foto certa, na capacidade que tiveram de acompanhar o digital e ser ágil nas transmissões das fotos.

Enfim, são profissionais que se enquadram no perfil do mercado de hoje: se reciclaram durante a carreira e produzem bem, tem um olhar experiente e revistado, trabalham com luzes e não com um flash direto na câmera. Isso é coisa do passado. Informar no fotojornalismo é o principal, mas se você souber informar com plasticidade e beleza, verá que está no caminho certo.

Alexandra Martins diz:
Num de seus posts sobre o futuro do fotojornalismo você comenta que enxerga uma migração de jovens e talentosos profissionais para uma experiência solo. “Vários fotógrafos estão montando suas agências e assumindo uma posição que antes era somente dada aos editores e chefes das grandes redações”. O que está acontecendo nas redações ou na cabeça dos jovens fotógrafos para largarem a estabilidade e partirem pra algo autônomo? Isso me lembrou muito os projetos dos coletivos Garapa e Cia de Foto.

Emmanuel Pinheiro diz:
Alexandra, existem jornais e jornais. Os grandes prezam pela qualidade, seus profissionais são valorizados e trabalham com toda uma infra-estrutura. Já aqueles medianos não possuem isso.

Eu vejo desta forma: se você está num jornal há cinco anos, não tem plano de carreira, não há nada de desafio, não sobra tempo pra fazer seus projetos pessoais, você não ganha um mega salário, não pode produzir para um jornal o que gostaria de produzir, a linguagem do impresso é outra, é engessada. Você acaba pesando isso e tenta fazer a SUA fotografia e não aquela que o jornal quer.

Por isso vejo inúmeros fotógrafos insatisfeitos com o produto final, que é a fotografia. Seja na diagramação da foto, no corte ou na edição. Isto tudo frustra o fotógrafo. Daí vejo surgir a cada dia uma agência nova, fotógrafos com trabalhos autorais maravilhosos, jovens talentosos que querem a SUA fotografia e não um fotojornalismo engessado num trabalho quase que mecânico no dia a dia das redações. Enxergam um mercado de fotografia que existe fora das redações e que dá dinheiro e prazer. Por incrível que pareça, a estabilidade do emprego já não é um fator decisivo. Existe um grande mercado fotográfico fora das redações.

Alexandra Martins diz:
Isso seria o tal do fotojornalismo multimídia?

Emmanuel Pinheiro diz:
Não, isso seria o reflexo da insatisfação dos fotógrafos com jornais medianos que não pensam na fotografia.
O multimídia já é outra coisa. É um caminho natural que a fotografia vai seguir porque a fotografia nos tempos da internet já está ficando ultrapassada. Uma boa foto, mesmo que revistada, já não basta para a internet e as grandes reportagens. O trabalho multimídia é o caminho pra isso, é a fotografia se superando, se aliando ao vídeo e a infografia, ao som, e tudo mais para ser a grande reportagem do futuro, da internet e dos grandes jornais.

Alexandra Martins diz:
Há alguém ou algum grupo que faça esse tipo de trabalho atualmente? Que você possa sugerir

Emmanuel Pinheiro diz:
Que eu conheça, o Cia de foto e Garapa, Mas existem jornais como o Clarín, que tem material de multimídias maravilhosos. Eles fizeram um multimídia sobre o narcotráfico no México maravilhoso. Olhe nos arquivos e vê se você acha. Claro, a Magnum in Motion são grandes reportagens. Existem outros, mas não me lembro agora.

Alexandra Martins diz:
Eu ia perguntar sobre isso mesmo contigo, se haveria no Brasil algum jornal onde houvesse maiores possibilidades de experimentar uma linguagem mais moderna. Até agora parece que eles estão caminhando pra uma mudança, uma experiência multimídia, mas nada muito concreto até agora.

Emmanuel Pinheiro diz:
Existe aqui no Brasil, mas aí não posso falar por todos os jornais, uma experiência multimídia. A idéia de criar grandes reportagens com fotos e infografias, vídeo, som tudo. Mas ainda não vi e por isso não vou dizer que não exista um multimídia como vi no Clarín. Sinceramente, não sei te responder isso. Talvez haja um projeto legal e eu não posso falar do que não sei. Existem fotógrafos fazendo multimídia como o Henrique Manrezza do blog 28mm. Existem vários que estão investindo pesado nisso. Mas jornais, ainda desconheço.

Alexandra Martins diz:
Talvez por isso eles saiam da carreira: para ter mais tempo de experimentar um jornalismo multimídia e assim um projeto mais autoral que não exista ainda nas redações.

Emmanuel Pinheiro diz:
Talvez estejam se preparando. Sim, isso está acontecendo. Fotógrafos querem e gostam de experimentar.

Alexandra Martins diz:
Na verdade eles não saem da carreira. Eles partem pra outra experiência dentro da carreira que só poderia acontecer de maneira autônoma.

Emmanuel Pinheiro diz:
A mudança está na cara de todos, mas muitos não sabem como lidar com essa mudança. Os jornais ainda não sabem como isso vai funcionar, de internet versus papel e qual papel da multimídia nisso tudo. Isso requer uma nova linguagem e um novo padrão de leitura, que por sua vez muda todos os parâmetros que os jornais tem de público. Também há uma preocupação com a migração da publicidade para internet, assim como uma preocupação de mercado.

Alexandra Martins diz:
Eu acho super interessante os projetos multimídia e estudo pra poder me aprofundar mais nesta área. Mas ao mesmo tempo, tenho um certo medo porque isso pode se tornar uma “bolha” como aconteceu com o jornalismo e a internet. Muitos profissionais começaram a sair da redação pra ter seu próprio site ou blog. Poucos conseguiram viver disso e tiveram que voltar ao o que era antes porque não havia público pra tanta informação e as pessoas não conseguem acompanhar todas as informações que acontecem no mundo virtual.

Emmanuel Pinheiro diz:
Hoje o que mais se vê e se tem é informação e o leitor sabe o que quer ler. Ele não vai comprar um jornalão pra ler sobre economia. Ele vai entrar num site ou comprar um jornal ou uma revista especializada em economia.

Por isso existe um mercado que está cada vez mais segmentado em economia, esportes, política e entre outros. O leitor não tem mais tempo pra ler tudo, ele vai direto ao ponto e pra isso todas as ferramentas são importantes para atraí-los. Seja o multimidia, seja o blog, seja o twitter e etc.

Você percebe que mesmo os grandes jornais tem blogs com colunistas famosos para o leitor se sentir seguro da informação e o jornal percebeu esta segmentação. Criou um blog para o colunista de economia, outro de política e assim por diante porque é a porta de entrada mais fácil para que o leitor continue a ler o jornal.

O Noblat é o exemplo disso. Era jornalista e virou fonte por causa do seu blog que por sinal é uma leitura obrigatória. A forma de se informar vai mudar, ou melhor, já está mudando gradativamente e isso também acontece com a fotografia.

Alexandra Martins diz:
E dentro da nossa área, os fotógrafos do Estado de S.Paulo também criaram um blog – http://blogs.estadao.com.br/entre-cliques ; assim como os do O Globo http://oglobo.globo.com/blogs/fotoglobo/ e o pessoal de Santa Catarina – http://wp.clicrbs.com.br/fotografia/?topo=77,2,18

Emmanuel Pinheiro diz:
Sim, eu conheço. São blogs que nos mostram a fotografia nos bastidores, noticias sobre fotografia.
Mas ainda não é o multimídia no processo de informação, é sim uma porta de entrada para se conhecer o jornal através da fotografia. Que é muito válido.

Outro dia eu li que com essa tecnologia toda, como já te disse, os fotógrafos estão botando a mochila nas costas e indo fotografar. Agora eles agora filmam, fotografam, escrevem e editam o seu material multimídia
e sabe por que?

Porque os jornais não têm como bancar logisticamente tudo isso, não tem dinheiro pra bancar projetos como esse e ficam no dia a dia que não atrai leitores e rumando pra falência. Daí a experiência solo dos fotógrafos.

O fotojornalismo, mesmo com essas projeções catastróficas de crise, ainda está muito vivo nas grandes redações onde exista investimento. Mas estamos passando por mudanças e isso gera incertezas quanto ao fazer fotográfico.

Alexandra Martins diz:
Voltando ao assunto dos blogs e redes sociais. Eu lí todo o seu blog e achei seus depoimentos e reflexões pessoais sobre o mercado de trabalho muito pertinentes. Mas parece que a empresa (Estado de Minas) não achou. Você pode falar um pouco sobre sua demissão e o possível medo das empresas com as redes sociais?

Emmanuel Pinheiro diz:
Primeiramente acho que meu blog é um amontoado de coisas. Surgiu despretensiosamente e é assim até hoje. Fiz algumas críticas a edições dos jornais locais aqui de Minas, dentro do que eu pensava, pois não sou especialista em edição e nem em primeira página, sou fotojornalista.

Enfim, critiquei, mas não denegri a imagem de nenhum jornal ofensivamente, meu blog nem tinha essa pretensão e nem tem. Mas fiz criticas positivas e negativas. Escrevi minhas impressões sobre várias coisas, é um espaço meu como você pôde constatar. A liberdade de expressão está acima de tudo.

Eles se sentiram ofendidos e me demitiram por Justa causa, motivo: Improbidade. Eu te pergunto: e a minha liberdade de expressão? E a tão alardeada liberdade de expressão que os jornais tanto apreciam e me demitiram depois eu disse verdades que não foram aceitas por eles. Respeito a decisão da empresa, mas não concordo. Vou lutar até o fim pra buscar meus direitos.

Os jornais (provincianos) gritam pela liberdade de expressão, mas na verdade não aceitam críticas
De nenhuma forma, por isso fui demitido: por pensar e escrever minhas frustrações num blog.

Em pleno século 21, se isso for pra frente, será um murro no estômago de todos os jornalistas e fotógrafos do país. Um cala boca.

Alexandra Martins diz:
Achei super interessante teu relato sobre a foto de capa da Lula com a Dilma em que você e um colega fizeram a mesma imagem, uma foto riquíssima de detalhes e que dá margem para inferir muitas informações. Ela não é apenas um registro do evento. O fotojornalismo tem que ter informação, seja no olhar ou gesto do personagem. No entanto o Estado de Minas, jornal onde você trabalhava na época, não bancou a sua foto e o teu jornal concorrente, sim. No final da história, o Estado de Minas preferiu postar uma fotografia de agência. Acredita que este foi o motivo que acarretou sua demissão?

De certa forma houve uma perda de qualidade quando não escolheram a imagem de Lula rezando ao lado da Dilma. E também houve um descaso com o profissional. Se o jornal manda um repórter fotográfico fazer a cobertura do evento, por que vão escolher a imagem de agência? Acha que isso aconteceu por má fé ou foi um descuido da empresa?

Emmanuel Pinheiro diz:
A sua pergunta está errada. O jornal não comprou foto de agência. O fato foi que tivemos duas agendas do presidente no mesmo dia em Minas e tivemos dois fotógrafos do Estado de Minas presentes nos locais. Beto Magalhães em Jenipapo de Minas durante a manhã e eu em Juiz de Fora à tarde.

O que aconteceu? Beto Magalhães é um fotografo experiente e meu amigo. Quando liguei pra, o mesmo estava editando o material dele e mandando pro jornal. Ele tinha ótimas imagens e eu sabia disso. Liguei pra saber como tinha sido e como estava o material fotográfico. Ele me disse que tinha boas imagens. Claro que sabia que ele tinha boas imagens.

O fato foi que eu fotografei o Lula e a Dilma, a tal foto que está no blog à tarde, lá pelas cinco da tarde e não tive como mandar logo, pois estávamos sem sinal de internet. O que fiz? Liguei para meu sub editor e disse a ele que tinha uma imagem interessante. Todos os fotógrafos sabem quando uma imagem interessante. Todos.
Ali havia uma imagem que podia ser melhor para a edição do jornal. Mas meu sub editor me disse que não precisava do meu material, pois o material fotográfico da manhã do Beto Magalhães estava ótimo.

Ora isso eu sabia, mas como pode um sub editor de fotografia ser tão amador e dizer que não precisa enviar um material de cobertura presidencial? Fiquei chocado com tamanho amadorismo e negligência. Mas fiz o que me mandou o tal sub editor. Não enviei nada.

Achei e acho uma foto boa, com uma mensagem clara. Fotos falam, e aquela falava alto. Mas se você tem um sub editor deste nível de amadorismo o que esperar do jornal? Foi aí que postei no meu blog a história, mas na verdade este não foi o fato decisivo na minha demissão. O blog foi a causa da minha demissão. O conjunto da obra como disse meu ex-editor de fotografia.

Pensei, falei e fui demitido por justa causa. Eu pergunto a você, o que é mais grave: postar um fato desses num blog desconhecido ou o fato acontecer?

Alexandra Martins diz:
E é triste ver que em pleno século 21, após a abertura democrática e as mudanças que as redes sociais tem trazido para o mercado de trabalho, esses pequenos espaços de comunicação – como blog, twitter, MSN, trazem um certo medo às empresas.

E isso me lembra de um professor na faculdade que sempre comentava sobre a ditadura do espaço e a ditadura do tempo nas redações e como isso influência na cobertura diária. Eu não entendia o que isso significava até entrar numa redação. Como podemos contornar essas ditaduras?

Emmanuel Pinheiro diz:
Existe a ditadura clara e a velada. Antes, a clara colocava censores dentro das redações. Hoje as relações comerciais, pessoais, político partidárias colocam a censura velada dentro de cada profissional. A censura existe sim, ela não acabou e TODOS sabem disso, uns concordam e se calam, outros falam e perdem o emprego.

Contornar essa Ditadura é como ser um elefante numa pequena loja de cristais. Tem que dançar conforme a música ou sair do salão. Ou o salário e a mordaça ou a liberdade e um pouco mais de vida

Alexandra Martins diz:
Eu acredito que ainda há uma ditadura, mas em outros contornos. É complicado fazer boas fotos com o pouco tempo disponível que os repórteres fotográficos possuem e aliado à isso ainda existem as publicidades que nos jornais ocupam grande parte das páginas. É matar um leão todos os dias.

E pra finalizar a entrevista. Gostaria que você falasse dos seus planos daqui pra frente. Você tem postado alguns projetos fotográficos, projetos autorais. Pode falar sobre eles?

Emmanuel Pinheiro diz:
O tempo de produção no jornal é mínimo. Às vezes você sai com cinco ou seis pautas no dia e uma dessas será a capa de domingo e não dá tempo de fazer um trabalho bom nessas condições. Quando temos tempo, aí sim podemos investir na foto, mas é raro. Acontece, mas é difícil.

E quando acontece o trabalho fica diferente. Se você tem tempo, acaba se dedicando mais, é obvio,. Além do resultado que é 10 vezes melhor. Mas na realidade somos escravos do tempo. Muitas pautas e pouco tempo. No final, o trabalho final fica prejudicado assim como eu disse no meu blog e que causou a ira do Jornal.

Os editores também vivem isso, tem milhares de coisas pra fechar resolver e ás vezes como não estão na rua, não sabem qual é a melhor imagem ou foto do dia. E também erram na escolha porque são humanos.

Alexandra Martins diz:
E agora você tem mais tempo pra tocar projetos pessoais?

Emmanuel Pinheiro diz:
Olha, como aconteceu isso de modo tão abrupto e nebuloso, fiquei uns dias meio forado ar, mas já estou fazendo freelas que estão sendo ótimos.

Quanto ao projeto, era uma idéia antiga, que eu não colocava em prática por falta de tempo e também por não estar num momento legal pra fazer a coisa, mas depois disso tudo percebi que existe vida pós-redação. Não é fácil, mas existe.

O projeto está caminhando junto como repórter Bernardino Furtado, meu amigo. Juntos estamos tocando o plano que é bem legal, mostra uma camada da sociedade desfavorecida financeiramente que busca o corpo perfeito a qualquer custo. Pretendemos fazer um multimídia com essa iniciativa, mas antes de tudo é uma coisa pra despertar o olhar. Ao contrário do jornal onde já se sabe o que vai acontecer, a luz que eles querem e o corte que vão dar. Então tudo fica automático e engessado demais.

O projeto está no www.cumplicidade.org e também no meu flickr www.flickr.com\photos\pinheiro33

Alexandra Martins diz:
Fico na torcida também para que dê certo e agradeço a disponibilidade para conversar comigo em pleno sábado de manhã.

Emmanuel Pinheiro diz:
Pra você ver como a internet está mudando todo modo de fazer Jornalismo. Você me entrevistou aí e eu aqui, em pleno sábado de manhã e eu nem te vi e você também. É a tecnologia que nos mostra que temos que nos adaptar.

Alexandra Martins diz:
Por isso mesmo que eu quis fazer uma entrevista via MSN. Pra poder utilizar as redes sociais como instrumento de jornalismo. Daqui a pouco estarão fazendo entrevista via twitter *risos*

Emmanuel Pinheiro diz:
Última frase pros Focas: Acreditem sempre no seu trabalho e o faça com dignidade e prazer, só assim você estará sendo profissional.

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